You Are

You Are é uma música interessante: está no meio de um álbum pesado e revoltado: Can’t Keep, Save You, Love Boat Captain, Cropduster, I Am Mine, Help Help, Bu$hleaguer, todas elas dialogam com o mundo exterior, com os EUA sob a batuta de George Bush, a guerra, o consumo, o dinheiro, etc. Mas You Are é uma espécie de “ar puro” dentro de toda essas indagações politicas e sociológicas.

O Eddie parece querer manter a sanidade ao colocar uma música tão terna (não vou usar romântica, explico o motivo mais adiante) no meio desse furacão que é o Riot Act. O riff cativante da guitarra (criação do Matt, com o auxílio da bateria!), e a letra envolvente do Eddie são as protagonistas aqui, não há um solo do Mike nela, e isso é interessante, pois parece focar as atenções apenas no que o Eddie quer dizer e na batida que a guitarra impõe ao longo de toda a música.

Essa dicotomia Eddie-Mike (Matt), foco da You Are, é algo que deixa a música em um tom sério, maduro. A letra é apaixonada, mas é adulta, e o Eddie parece estar seguro do amor que encontrou, e evita uma entrega cega e juvenil, presente em letras anteriores como o amor platônico de Black e o arrependimento de Rearviewmirror. You Are fala de um amor sóbrio, apoiado em sentimentos que foram experimentados e testados com o tempo; há nela uma aceitação por parte do casal de que eles se amam e não precisam dizer isso um para o outro para manter a relação no caminho certo. Nela, quem fala é o homem, é ele que mostra para o mundo o quanto esse amor é maduro.

Os primeiros versos possuem réstias da revolta contida nas músicas anteriores do álbum. Parece que o teor de indignação ainda se mantém, mesmo tendo se iniciado uma música de amor:

“This broken wheel is coming undone… And the roads exploding…”

Essa roda quebrada está chegando incompleta… E as estradas estão explodindo.

Tudo ainda parece um caos, nada está no lugar que deveria; o entorno (Riot Act) é problemático: Can’t Keep e a necessidade de escape; Save You com a urgência, e absoluto desespero, em pedir ajuda; Love Boat Captain pedindo mais amor; Cropduster e a percepção de que precisamos agir; Ghost e, de novo, a vontade de fugir, voar para longe e I Am Mine, o refrão de toda essa sinfonia “Rioactiana”.

Depois de toda essa tempestade (Thumbing My way faz parte dela, afinal mostra de uma maneira linda a dor de uma perda), vem, finalmente, You Are: “você é”, uma exceção a toda essa loucura que é o mundo. Os versos seguintes já iniciam esse ode ao amor; existe o caos, mas:

“But you’re keeping me Strong, rolling along with you…”

Mas você me mantém forte, caminhando na sua companhia…

A “força” vai ser o alicerce desse amor; ela dá confiança a ele, guiando-o na caminhada da vida. Esses dois versos já se encaminham para o refrão da música: parece existir uma urgência em afirmar o que essa mulher significa para ele. Esse refrão vai sofrer pequenas alterações quando repetido mais à frente, mas são essas mudanças que irão expor o cerne da música: o fato dessa mulher ser a chave para entrar na torre (substantivos concretos), e ao mesmo tempo o amor (algo abstrato), ou seja, toda a força que ele precisa para atingir esse ideal amoroso.

“Love is a tower, and you’re the key… Leading me higher, when you let me in…”

O amor é uma torre, e você é a chave. Guiando-me mais alto, quando você me deixou entrar…

O amor como entidade é representado na figura de uma torre, e duas coisas precisam ser feitas para se ter um conhecimento pleno dele: ter uma chave de acesso a ele, e ser guiado alto, ascendendo nele. Pois bem, o compositor reconhece essa torre, e quem apresenta a ele a chave para poder entrar é essa mulher. Essa analogia é bastante simplória, chegando ao ponto de ser um clichê, mas, como disse anteriormente, esse casal não precisa provar nada um para o outro e muito menos para as pessoas à sua volta, por isso essas imagens simples, não é preciso complicar. A questão é simples: guie-me por essa torre, deixe-me subir os seus degraus e, aos poucos, conhecer melhor esse amor. É interessante essa submissão (saudável) do homem no relacionamento: quem permite que esse amor aconteça é ela, e não ele.

“Sometimes I burn like a dot on the sun, with no one knowing. But you’re keeping me strong, rolling along with you…”

Às vezes eu me queimo como uma mancha no Sol, sem ninguém saber. Mas você me mantém forte, caminhando na sua companhia…

Aqui nesse trecho há um retorno àquele caos mencionado nos dois primeiros versos da música, mas agora eles parecem mais escassos e mais passíveis de controle. Ele queima, chegando ao extremo de se comparar a uma mancha no Sol, e sem ninguém saber, exceto ela. O interessante é que o papel dessa mulher é apenas ajudá-lo, não há cura, ela apenas o mantém forte. As dores que esse sujeito passa – as dores do mundo à sua volta – estão com ele, independente de todo o amor que ele possa sentir por ela (a cura parte de cada um, já dizia a Cropduster). O importante é que ele, independente do que sinta, não está sozinho, ela sempre vai fazer companhia. Mais uma vez a mulher chega como a força desse relacionamento, e, como os próximos versos vão confirmar, ela é a torre que deixou ele entrar e ascender para algo maior:

“You are a tower of strength to me; the darkening hour sees light again…”

Você é uma torre de força para mim; a hora mais escura vê luz novamente…

Pronto, a analogia está completa. No primeiro refrão ela é a chave de acesso ao amor (torre); mas, ao mesmo tempo, ela é essa torre (refrão acima); ou seja, o amor é uma torre é a torre é ela, logo, ela é o amor; ela é o caminho completo para se chegar a algo pleno e puro. Além disso, ela não é apenas uma torre, mas uma torre de força para ele, um farol que o guia através de águas mais calmas e também aponta a direção da praia, o porto seguro que ele tanto precisa.

Nos dois últimos versos dessa estrofe, o compositor acrescenta mais uma bela figura do quanto ela é importante para ele nos momentos negativos da sua vida: “A hora mais escura vê luz novamente…”; ele vai viver esse caos (presente quase que completamente no Riot Act), mas pelo menos isso acontecerá em um dia claro, e não na escuridão que antes dominava a sua vida. O Eddie pode criticar a política, lamentar a ganância das pessoas, ver elas “half full of shit”, etc… Mas agora ele tem a companhia de alguém que o mantém forte, essa torre de amor que o guia na direção de um conforto há tanto tempo aguardado.

Em seguida ele repete várias vezes “You are, you are, you are…”. O Eddie precisa dessa confirmação de que ela é importante; ela precisa ouvir ele dizendo várias vezes tudo o que ela é, tudo o que ela representa: chave, torre, força e amor. Depois dessa afirmação, a música silencia, parece tomar um momento para respirar depois de tanta veneração a esse amor, e em seguida volta com a guitarra e a bateria, retomando aquela batida inicial e tão singular dentro do catálogo do Pearl Jam. O refrão volta, é claro… É preciso mais, é preciso repetir para ela e para todos dispostos a ouvir, o quanto ela mudou a sua vida e tornou-se um farol para guia-lo no meio dessa tempestade caótica:

“Love is a tower of strength to me; I am the shoreline, but you’re the sea…”

O amor é uma torre de força para mim; eu sou a linha da costa, mas você é o mar…

Depois de repetir que o amor é uma torre de força para ele (relembrando: ela = amor, torre, chave, força), o Eddie acrescenta uma das linhas mais belas dessa música. Para quem achava que ele finalmente creditava para si alguma parte no relacionamento: “Eu sou a linha da costa”, pode deixar a ilusão de lado, o Eddie arremata no verso final: “Mas você é o mar…”, você é o gigante, o principal, aquilo que representa o desconhecido, o belo e o infinito. O lugar dele nesse relacionamento é ser levado por esse guia, esse farol, e desaguar na praia de acordo com os movimentos do mar.

You Are é daquelas músicas que podem soar estranhas na primeira vez: sua batida é diferente e não parece refletir, de início, a sua letra. Isso é um lado interessante do Pearl Jam: melodia e letra podem parecer dissonantes a princípio, mas quando ouvimos com calma, casam perfeitamente. You Are, como mencionei anteriormente, tem um ar maduro, adulto; e a força da bateria, juntamente com a “batida” da guitarra, coloca uma seriedade na letra do Eddie e contribui para que a mensagem seja transmitida. Melodia e letra são, nessa grande música, linha de costa e oceano, o relacionamento perfeito.

Publicado no blog dia 22 de Março de 2013.

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