Análise – Observações Preliminares: Ten

Começo a postar a partir de hoje alguns textos sobre os álbuns do Pearl Jam e as suas músicas; quem escreve eles é o membro “Stip” do fórum Red Mosquito. Ele já vem fazendo isso a algum tempo, analisando vários álbuns com textos excelentes, mostrando a caminhada que o Pearl Jam vem fazendo através dos anos. Já é possível ler análises de alguns álbuns, mas começo do começo. Tentei traduzir o texto de abertura que ele faz do Ten da melhor forma possível. Assim que for traduzindo o restante, em que ele faz um ensaio sobre cada música do álbum, vou colocando aqui no blog! É uma leitura que vale muito a pena, e nos faz perceber melhor que o Pearl Jam é, sem dúvida, mais que uma banda.

– Observações Preliminares: Ten –

O Ten é sem dúvida um álbum épico – o tamanho dessa definição faz com que muitas pessoas prefiram o tom mais restrito e intimista dos álbuns posteriores, mas acho difícil negar que ele é um grande álbum no melhor sentido da palavra – que tem algo a dizer, e quer dizer bem alto para ter certeza que a mensagem não se perca. Você pode perceber a influência do The Who no que concerne a isso mais do que em qualquer outro álbum. Ao mesmo tempo, há uma intimidade nas suas músicas: por serem sobre outras pessoas, e pela própria música ser maior que tudo, uma conexão muito pessoal é feita. Muito disso acontece devido à voz do Eddie, você é convidado a habitar os personagens dessas histórias e sentir o que eles sentem. Elas são histórias, mas as histórias são sobre você. Isso é uma façanha incrível, e uma dos coisas que fez do Eddie um dos melhores vocalistas do nosso tempo. 
Também vale a pena mencionar o quanto o Pearl Jam significa como um todo e o que os separa dos seus conterrâneos (e o que ficou claro desde o início). Todas as bandas consideradas “grunge” escreveram para pessoas insatisfeitas, mas era um tipo de insatisfação que diferia do movimento punk dez anos antes. Essa era uma música escrita por “outsiders”, pessoas de fora da cena; o que fez do grunge diferente é que ele era escrito para pessoas de dentro que ainda sentiam-se insatisfeitas. De certa forma era como se fosse um rap/punk para pessoas de classe média brancas que tecnicamente tinham o que queriam, mas ainda sentiam que havia algo faltando. A música foi uma busca para achar essa parte que faltava. Desde o início havia uma dimensão social/política na música que o Pearl Jam fazia – um desejo e uma necessidade de confrontar o mundo exterior e assim tentar desvendar o que aconteceu de errado, o porque de não estarmos vivendo o que foi prometido (parafraseando “Angel”), e, acima de tudo, descobrir o que podemos fazer com relação a isso. 
Se você for resumir com uma palavra o tema do Ten, essa palavra é “traição”. A música do início dos anos 90 foi escrita para os filhos dos filhos dos anos 60. A primeira grande onda do rock daquele período era uma música que tentava com todas as forças ser transformativa, tentava corrigir os erros do mundo e servir como fonte de inspiração e emoção para as pessoas. Em seguida, essas pessoas cresceram e deram ao país 12 anos de Regan e Bush. Ao invés de idealismo, havia um vácuo do hedonismo e a glorificação da ganância; a geração subsequente a essa cresceu em meio a essa falha na revolução proposta pelos seus pais. Essa nova geração sentiu-se de alguma forma traída, havia a sensação de que uma grande promessa havia sido perdida e que as pessoas não tinham ideia para onde ela foi, e o que aconteceria daqui pra diante. Essa foi a mentalidade que animou aqueles membros mais conscientes da “geração X”. Todas as grandes bandas grunge falaram dessa experiência – todas tentavam de alguma forma lidar com esse sentimento de traição e despropósito com as coisas ao seu redor. O problema é que a maior parte dessa música era niilista e, ou permitia, ou celebrava a sua própria dor. O Pearl Jam foi a única banda desse período que conseguiu erguer-se diante dessa situação; e o que fez dos primeiros álbuns trabalhos tão magníficos não foi apenas o fato da banda expressar tão fortemente a sua fúria, medo, raiva e a insegurança do momento, mas de que quase todas as suas músicas tem um momento de luz, uma rota de fuga. 
Álbuns posteriores (começando com o No Code) começaram a cristalizar melhor o que essa rota de fuga poderia significar. Nos primeiros álbuns ela aparece mais como uma promessa – uma esperança sombria para uma futura redenção. O que estava claro era o senso de comunidade criado a partir da música: se nós se juntarmos, talvez consigamos achar o caminho. Mas de novo, no Ten ainda não há respostas (é a música “Breath” que articula isso mais claramente dentre as músicas desse período) – só a esperança de que a resposta está em algum lugar, manifestada muito através da voz do Eddie e das suas letras. A catarse não é intelectual – é emocional, e experimentada com um poderoso imediatismo. Essa é a verdadeira fonte de carisma do Eddie, especialmente naqueles anos. Ele ainda não era solto e articulado, além disso era tímido e pouco comunicativo. Mas quando cantava você SABIA, de um jeito que poucos cantores conseguem capturar e transmitir, que ele sentia o que você sentia e que estava procurando as respostas com você; e se nós ficarmos juntos com ele e juntos com todos os outros, nós encontraríamos uma resposta.
Créditos: Stip, membro do fórum Red Mosquito.
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