Análise: Present Tense

Lembro da primeira vez que ouvi o No Code e confesso que foi um disco que não gostei na primeira ouvida. Achava ele diferente demais e sabia que ia precisar ouvir mais vezes, compreender os detalhes e só assim ter uma opinião formada. Anos depois, hoje digo que o No Code forma junto com o Yield e o Binaural a trilogia que considero sagrada do Pearl Jam.

Ao ouvir o No Code, lembro especificamente de Present Tense; ela é uma das obras primas do Pearl Jam. Seu começo tímido, a guitarra do Mike quase inaudível, e a forma como essa música cresce até seu final, com a banda toda, principalmente a bateria do Jack Irons que é única em seu estilo mais tribal.

Do you see the way that tree bends?
Does it inspire?
Leaning out to catch the suns rays
A lesson to be applied

O começo de já é o indício do Eddie que conhecemos por músicas com grandes metáforas na natureza. As plantas se curvam em direção ao sol por que ele é quem provê a energia necessária para elas crescerem (todos se lembram das aulas de Biologia sobre a fotossíntese). Não apenas crescerem mas desenvolver seu modo de vida. Uma planta sem sol, com algumas poucas exceções, é uma planta sem vida; é o sol que a alimenta. Sabendo disso, isso te inspira? Qual a lição que poderemos tirar das plantas? Provavelmente, a lição de que nossas vidas também precisam de um sol. Neste ponto, um sol metafórico, não no sentido propriamente dito, mas algo que nos dê a energia para prosseguir todos os dias. Cada um de nós tem um lugar de onde essa energia flui, o que nos motiva em particular.

Are you getting something out of this
All encompassing trip?

Você está tirando algum proveito dessa viagem que fazemos juntos? “Juntos” seria compartilhar o mesmo espaço temporal que compreende o intervalo de nossas vidas. Uma longa viagem de, na média, 75 anos. Mas o que aproveitamos dela? Muitas pessoas passam anos buscando compreender quais seriam os sentidos das suas vidas. Para algumas doutrinas orientais, elas estão aqui devido ao seu carma, e aliás, carma é uma palavra importante nessa análise. Não sou especialista nesse tema, mas pelo que conheço o carma diz que o que vivenciamos nessa vida é fruto de decisões tomadas no passado. É uma causa e efeito, de maneira geral, em que nossas ações se refletem por nossa vida. Isso é importante por que os próximos versos possuem uma ligação com essa questão de carma, na minha opinião.

You can spend your time alone
Redigesting past regrets
Or you can come to terms and realize
You’re the only one who can’t forgive yourself
Makes much more sense
To live, in the present tense

 De fato, tudo que fazemos reflete algo no nosso futuro. Você, que está aí lendo esse meu texto, provavelmente terá sua vida toda afetada por essa ação. Se em vez disso estivesse assistindo a um belo jogo de futebol ou fazendo qualquer outra coisa, os desdobramentos provavelmente seriam diferentes. “You can spend your time alone, redigesting past regrets”. O carma é pessoal, não coletivo. Você poderia passar o resto da sua vida sozinho, pensando nas suas ações e se arrependendo delas, OU… “you can come to terms and realize You’re the only one who can’t forgive yourself Makes much more sense to live, in the present tense.”

Você pode perceber que faz muito mais sentido viver o hoje, sem pensar no que passou, pois “esse passado” não mudará os fatos; o que importa é que, a partir de agora, nossos erros nos ajudarão a acertar. ‘Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, mas podemos começar agora e fazer um novo fim’, diria aquela famosa frase. Nesse trecho me pergunto se eles teriam a ver com o pai do Eddie; talvez um arrependimento de, quando o pai foi apresentado como um amigo da família, ele, Eddie, não ter dado muita bola, ou não ter percebido nada de estranho. Uma atitude que se manifesta até os dias de hoje na vida do Eddie.

Have you ideas on how this life ends?
Check your hands and study the lines

Aqui o Eddie evoca o destino. A quiromancia é a arte que algumas pessoas dizem ter para ler as linhas presentes na palma das mãos pra nos dizer nosso futuro – é o nosso destino. Mas ao mesmo tempo, essa frase da “Present Tense” não demonstra uma aceitação passiva. As mãos representam a ação, a atividade. Estude as linhas das suas mãos, pois a solução para o que você se pergunta ou o que você quer está nela. Elas representam que a força está com quem quer, de fato, mudar algo.

Have you ever believed that the road ahead
Ascends off into the light?

Você acha que a estrada que você escolheu é a correta? Ela está te levando pelos caminhos certos? Eu me lembro que em uma entrevista o Jeff comentou que o Pearl Jam quase acabou em 1996 por ser considerada ‘a bandinha do Ed’. Seria o Eddie se questionando sobre suas próprias decisões? Sobre sua maneira pessoal de escrever e cantar? E seria isso uma analogia para nos questionarmos se nossas escolhas são realmente o que devemos fazer ou se há outra alternativa? Esses questionamentos ajudariam a se livrar dos arrependimentos passados cantados anteriormente.

Seems that needlessly it’s getting harder
To find an approach and a way to live

Needlessly. Essa pra mim é a palavra mágica. Parece que sem a necessidade está ficando difícil achar uma maneira e um jeito de viver. Isso por que os arrependimentos são desnecessários, a vida segue; e é difícil encontrar essa nova forma de viver carregando um peso nas costas, um arrependimento. A partir daí, os versos iniciais de repetem.

Are we getting something out of this

All encompassing trip?

You can spend your time alone

Redigesting past regrets

Or you can come to terms and realize

You’re the only one who cannot forgive yourself

Make much more sense

To live in the present tense

Pra mim, Present Tense não só é profunda como é também um ensinamento; um ensinamento de que tudo passa. De que talvez o que damos valor hoje em dia como sendo algo custoso emocionalmente, fisicamente, terá seu valor diminuído quando encontrarmos nossos caminhos novamente, quando acharmos nossa nova motivação e a energia para prosseguir, assim como a energia do sol para as árvores. Present Tense me ensinou que o passado existe e existirá pra sempre, sem poder ser destruído; mas ela também me ensinou que ele não pode ser revivido, e que tentar revivê-lo é perder a chance de aproveitar as novas oportunidades que aparecem na vida. Por isso, faz muito mais sentido viver o hoje.

Anúncios

6 thoughts on “Análise: Present Tense”

  1. Ótima análise! é exatamente isso que sinto quando escuto essa verdadeira obra prima do PJ… minha próxima tattoo será um trecho dela. 🙂

  2. Análise perfeita! Parece que você leu os meus pensamentos…
    Essa música, quando começa, parece uma daquelas músicas chatas e deprimentes e que não dão em nada. Mas, quando ela começa pra valer — digo, quando a música toma forma, quando ela finalmente nos diz o que ela quer dizer, parece que tudo o que você pensa foi colocado na letra e, consequentemente, na voz do Eddie.
    Vou “copiar” a ideia da Jamile e tatuar uma frase dessa música no meu corpo haha

  3. Muito massa a resenha, como sempre… Não tem jeito, quando rola essas resenhas aqui no site, de alguma música ou álbum, eu sempre me recordo de quando foi a 1ª vez que eu ouvi o álbum… Escutei a 1ª vez em uma fita cassete, no walkman ainda, andando de skate lá em 1996… Quando a música “Sometimes” começou abrindo o álbum, e a dinâmica da música e do vocal do Eddie foi aumentando a tensão da mesma quando ela está indo para a parte final, eu parei de andar de skate, deixei os meus amigos andando de skate sozinhos, sentei no meio fio da rua e fiquei escutando a fita inteira… Fiquei de cara mesmo com as músicas desse álbum. Para mim, todos os álbuns do Pearl Jam são perfeitos, mas o No Code, sem dúvida nenhuma, foi o ápice da linha do horizonte brilhando em cores… Tanto nas letras das músicas quanto nas composições das mesmas. E a gente achava muito massa o Pearl Jam fazendo estas músicas, dando um “chega prá lá” e um “vai se f…” na mídia em geral (e até para os fãs que só curtem o Ten e até hoje estão esperando um novo Ten). Muito massa a atitude dos caras com esse álbum. “Present Tense” mata a pau também!

  4. Como sempre uma bela análise. Mas sem querer ser do contra… eu não sou muito fã dessa música. Acho-a muito massante (I’m Open e Around The Bend também são péssimas). Mas em contrapartida a letra é fabulosa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s