Eu e o No Code – O No Code e Eu

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Tem uma pergunta que eu imagino ser difícil para qualquer fã do Pearl Jam. É uma ocasião que pode demorar para acontecer, que pode causar um frio na barriga quando em uma conversa alguém ameaça perguntar, mas que cedo ou tarde virá à tona e o pobre fã terá que dar cautelosamente sua posição ao responder à pergunta ‘qual seu álbum favorito?’. Creio que todos que admiram esta banda pensam, repensam e no fundo respondem, mas sem convicção e nem certeza de que é sua resposta mais sincera.

Costumo dizer que há uma trilogia sagrada no Pearl Jam composta por No Code, Yield e Binaural. São discos onde a identidade da banda aflora de maneira incrível e que, pelo menos no meu caso, difere dos outros discos. Embora eu ache difícil escolher um entre os três, posso dizer que o No Code pra mim é especial. Me recordo de que a primeira música do No Code com que tive contato foi Off He Goes quando eu estava começando a conhecer o Pearl Jam e as músicas de cada disco. Aquele violão calmo do Eddie, sua voz tranquila e poética. A guitarra do Mike, singela e fantástica. A letra me pareceu obscura por muito tempo até que eu a entendesse. E quando a ouvi ao vivo, na minha frente, pela primeira vez em Curitiba em 2011 foi um momento mágico de que não me esquecerei. Tendo começado de uma maneira tímida na minha vida, ao longo dos anos o No Code se tornou o que considero o primeiro ato de perfeição do Pearl Jam, sendo o Yield e o Binaural os outros atos de perfeição que constituem a trilogia sagrada. Acredito que muitos que gostam e admiram o No Code não se sentiram assim logo de cara. Pelo contrário, precisaram de tempo para compreender o contexto e as entrelinhas.

Postamos há um tempo atrás na PJ2Fly um vídeo sobre a história e uma breve análise do Yield. Nele, um dos destaques foi citar a maturidade do Eddie nas letras. O sentimento que ele passa nas letras que ele compôs, como se estivesse sendo libertado como em Given To Fly. E esse é um dos motivos pelos quais eu admiro muito o No Code, pois através dele que a maturidade no Yield foi alcançada. É no No Code que o Eddie, após 3 discos brigando consigo, com sua vida, com o mundo ao seu redor, compreende onde ele está. In My Tree e Present Tense pra mim são as melhores músicas e letras já escritas por ele, justamente demonstrando essa busca pelo seu conhecimento interno, pela sua situação.

Os meados dos anos 90 foram conturbados para o Pearl Jam, isto é verdade. A banda quase acabou por ter se tornado demasiadamente baseada no Eddie. Talvez por isso o No Code tenha Mankind, como uma tentativa de aumentar a contribuição do Stone. Mas foi a época pela qual o Pearl Jam como banda superou de uma forma que talvez poucos artistas conseguiram através dos anos. Foi com base nessa época pós Vitalogy que acredito que o Stone se refere no Twenty como ‘ter levado anos para entender o Ed’.

Ontem ao ver o setlist do show de Moline não pude deixar de imaginar o quão afortunados aqueles fãs que lá estavam foram. Cheguei a pensar comigo mesmo: ‘Esse era o show em que eu deveria estar!’. Imaginei diferentes razões para aquele setlist quando compreendi que o No Code estava sendo tocado inteiro. Por que o No Code e não o Ten, Vs, Vitalogy, Yield, Binaural, Riot Act, Backspacer ou Lightning  Bolt? Só a banda sabe. Mas o que me deixou incrivelmente contente foi saber que o No Code, hoje em dia, ainda tem a força que talvez nem o Eddie ao se expor tanto soubesse que teria. Imaginar a banda se divertindo fazendo aquilo 18 anos depois do lançamento do disco é um sentimento de alegria e emoção. É estranho ficar tão feliz sem nem ter estado lá. Mas parece que é esse o sentimento geral, a felicidade pelo outro fã; a felicidade, por exemplo, de saber que muitos ouviram Strangest Tribe e Let me Sleep na Europa. E ontem, ao ver aquele setlist, aconteceu comigo algo que acontece quase todo dia: compreendi, mais uma vez entre milhares, como sou feliz por gostar do Pearl Jam.

 – Luiz Henrique Varzinczak

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6 comentários em “Eu e o No Code – O No Code e Eu”

  1. Ótimo texto! Eu particularmente tenho em cada álbum do pearl jam um carinho especial e sinto que que cada um me ajuda em determinado momento da minha vida, quando estou sentindo determinadas emoções, isso é algo que só pearl jam consegue me proporcionar e é por isso que sou grato a essa banda!

  2. Muito show o q escreveu. Como fã e administradora de grupo do PJ, convivo diariamente com os membros postando N coisas q curtem na banda. Faço as legendas com o coraçao, muitas vezes nao me importando como sera interpretada. O fã chega a ser surreal. Sou assim. Me dedico como vc…me atiro em um texto como vc fez: de cabeça. O album nem sempre importou…até ser tocado na integra. Fico grata por suas palavras. Ler um fã eh tao maravilhoso como ler uma carta de um amigo de anos. Indescritivel. Parabéns. No Code eh tudo. Amei<3

  3. “Trilogia sagrada”-rs ; pode até ser… para mim Vs, Ten, Yield ou Binaural; ih, são 3 !!! impossível restringir a 3 !!! como disseram , dependendo do momento que vivemos cada álbum se “encaixa” melhor, mas todos ( pelo menos de 1991 a 2006, para mim) tem seu lugar ; música e banda atemporal é assim-rs

  4. O “No Code” mata a pau mesmo! É perfeito do início ao fim! Escutando ele inteiro na ordem correta das músicas, é um dos poucos álbuns que soa e é interpretado como se fosse uma coisa só… Como se fosse (e é) uma história somente, com vários momentos ou situações diferentes na vida de uma pessoa, alternando com os dinamismos de cada música em relação aos sentimentos da pessoa… Com uma música ligando na outra, sendo as partes a constituição de um todo somente… Isso é que se define como uma obra de arte…

    Se a moda pega…, meu canário! Pode ser qualquer álbum, porque prá mim todos são muito massa e perfeitos…, mas se rolasse o “Binaural” ou o “Riot Act” na íntegra em algum show também…, mi senhor, daí vai dar perca mesmo!!!

  5. Parabéns pelo texto Luiz. Espero que eles preparem uma surpresa parecida para legião brasileira na tour do ano que vem (que já dou como certa que irá rolar).

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