Análise: My Father’s Son

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Dentre todas as coisas que passaram pela minha cabeça ao ver o nome da música ‘My Fathers Son’ entre as novas composições do Pearl Jam para o Lightning Bolt, nenhuma delas teria a ver com a música ser relacionada ao pai do Eddie. Afinal de contas, duas décadas depois, depois de Alive, Release e tantos outros momentos em que vimos o vocalista desta grande banda esbravejar sua fúria e também derrubar suas lágrimas para as situações que levaram à ele não conviver com seu verdadeiro pai (fato que embora triste tornou o Eddie quem ele é), pensei que o assunto ‘Pai do Ed’ estava encerrado.

Apesar de ter achado a música vibrante, explosiva, pesada, no momento em que a ouvi achei o tema anacrônico. Nos últimos anos o Eddie deu diferentes declarações sobre seu pai, e pareceu sempre cordial, simples, sem ressentimentos. E ao longo desses meses ouvindo a música sempre pensei o que faria o Eddie criticar tão duramente seu pai novamente.

Como muitas ideias, algo me veio à cabeça por acaso. A música não é para o pai do Eddie. A música é para Deus. Aliado ao fato do que expus acima (o tema tratado fora da época em que deveria ter sido), considero também o fato de que o Lightning Bolt é um disco profundamente descrente, relacionado à morte e com questões que criticam duramente as religiões e, em grande parte, Deus (o pai dos pais). Inclusive, penso eu, poderia ser Jesus no caso do filho.

Vamos aos fatos:

I come from a genius, I am my father’s son 

Yeah, too bad he was a psychopath 

 Seguindo a linha religiosa: Deus cria o mundo, a natureza. Dá a vida às pessoas. Mas ele também é responsável, ao menos no pensamento religioso que muitos têm, por tirar a vida das pessoas, pelas catástrofes, pela morte e sofrimento. É um comportamento estranho, ambíguo. Teria Deus várias personalidades que se mostraram para a sociedade ao longo da história? Vale lembrar que muitos criticam o Deus bíblico por considerarem-no assassino, preconceituoso, machista e homofóbico.

 And now I’m the next in line 

O mesmo comportamento do ser humano, o qual esconde em seu interior hipocrisias, mentira, ganância…Somos condenados a continuar as ‘obras do pai’, sejam elas boas ou ruins. Filhos herdam, embora não geneticamente, parte do comportamento de seus pais pela influência ao longo de seu aprendizado social. É um programa genético (como irei expor abaixo).

 Then there’s dear mother, yeh shirley

She’s a work of art Never got top dollar, but she gave us all our start

O pai abandona o filho, que pondera a importância de sua mãe em coisas mais importantes dadas à ele. Bom, talvez ali há alguma relação entre o pai biológico e o pai religioso. O Ed compara eles colocando os dois na mesma situação: não valem nada pois ambos abandonaram seus filhos, o pai do Ed por ser omisso, da mesma forma que Deus bíblico fez com seu filho Jesus.

Can I get a reprieve?

This gene pool don’t hurt me

 Este trecho é a explicação para a personalidade do filho. Ele quer fugir disso (get a reprive = cometer um indulto) pois está geneticamente condenado a ser como o pai (Deus), agindo da mesma forma com sentimentos controversos, agindo de maneira hipócrita. Isso condiz com o trecho que citei anteriormente: “I´m the next in line”. Mas não é isso que ele quer. O filho encontra a chance de se devencilhar desta figura paterna.

 Can I beg a release

I am a volunteer amputee

 Como dizem, o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus. Ele está ansioso para isso

O filho implora para ser libertado desta fila hereditária, disto que o aguarda tomando como base o comportamento do pai, misógino e sem piedade. O filho anseia por se tornar algo diferente.

 From the moment I fail

I called on DNA

Why such betrayal

Got me tooth and nail

Se o filho fizer algo errado, isso deve ser atribuído ao DNA herdado de seu pai. Afinal de contas, ao que parece, tudo é culpa do pai. Isso pode ser encarado com alusão à pessoas que tem um comportamento hipócrita em nome de Deus, seu grande pai, insinuando que Deus não aprovaria determinadas coisas. Entretanto, todo esse comportamento é baseado em algumas religiões, motivo pelo qual varia bastante entre as pessoas. Além disso, há um sentimento de traição para com Deus, uma vez que ao menos em teoria as coisas em nome de Deus deveriam ser boas e para o bem, e não geradoras de tristezas e preconceitos.

 Now father you’re dead and gone

And I’m finally free to be me

 As pessoas deixam de ser quem elas gostariam de ser por alguma linha religiosa. Isso ocorre pelos pecados. Para muitas religiões o pecado se manifesta de várias formas. Mas a partir do momento em que não se crê em Deus, que Deus morre em seu interior e em sua imaginação, não há motivo para continuar com a vida cheia de restrições impostas pelo desejo de viver eternamente no céu.

 Now I’m living in a war torn place

Hear the bombs, a 5th Symphony

Thanks for this and thanks for that

I gotta let go legacy

Olhe para o mundo ao seu redor. Estivemos em guerra durante toda a história. O filho culpa Deus, o pai, por esse mundo, justamente por grandes motivações religiosas terem derramado rios de sangue. Talvez apavorado, indignado. Em um dos clássicos do cinema, Laranja Mecânica, o protagonista Alex é submetido a um tratamento (não colocarei detalhes e nem spoilers) e passa a associar a Nona Sinfonia de Beethoven com situações nauseantes, principalmente crimes. Seria esta alusão à Quinta Sinfonia, também de Beethoven, uma alusão ao filme?

Como disse inicialmente, esta foi uma ideia que tive depois de ouvir a My Father’s Son prestando atenção não tanto na letra, mas sim na história do Eddie e sabendo que hoje não há mais espaços para lamentações relativas à seu pai neste nível de insultos.

– Luiz Henrique Varzinczak

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3 thoughts on “Análise: My Father’s Son”

  1. Bacana a sua linha de pensamento. Gostei bastante da interpretação. Sobre a 5ª Sinfonia, está associada à guerra mesmo. 5, V de vitória. Lembro aqui de “Arms raised in a V / The dead lay in pools of brown below”

    Um off… No filme Django Livre, há também Fur Elise de Beethoven. Interessante que o caçador de recompensa fica com uma cena em mente na hora da canção e, em Bastardos Inglórios, a mesma música toca para o personagem nazista. Genial, não? =P

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