Pearl Jam: Artistas Circunstanciais?

101196pearljamvedderdrO que é um artista? O que é a arte? Essas perguntas – e todas as outras que podemos fazer em relação ao tema – são muito complicadas de se responder em um texto. As opiniões são inúmeras, diversos pontos de vista podem fazer sentido e, não tenho dúvidas disso, não há uma resposta única.

Quero escrever sobre isso pois ando inquieto com o fato do Pearl Jam – mais especificamente o Eddie – ser considerado um grupo de artistas. Para mim, o artista é aquele que vive para sua arte, e não apenas da sua arte. Quero dizer que o artista verdadeiro, para mim, é aquele que vê na arte uma forma de vida. Ele faz arte porque alguma força o impele a isso: compor músicas, escrever letras e sentir o entorno, procurando, através dele, uma forma de “dizer” algo, transmitir suas inquietudes e questionamentos.

Sem fazer rodeios, digo: o Pearl Jam já foi um conjunto de artistas. Isso talvez tenha durado até mais ou menos 2005, 2006 – talvez um ano a mais, talvez um ano a menos. Depois disso, o fazer artístico enfraqueceu. Compor música virou apenas entretenimento, apenas algo para não parar o que estavam fazendo anteriormente. Lançar discos virou uma obrigação, e não mais um fruto colhido a partir da inquietude, da vontade de tentar procurar sentido nas coisas. Os protestos de músicas como “Mind Your Manners” e o romantismo de “Sirens” parecem vazios, preenchidos apenas com palavras que produzem efeito instantâneo. Sinto que não há sinceridade no Pearl Jam atual, não consigo perceber que eles fazem aquilo como um dever artístico, querendo comunicar algo que eles percebem mas o público não.

Li em um texto que artista é aquele que percebe a luz em meio ao escuro. Percebe aquilo que os outros não conseguem ver – vê, nas frestas, um caminho. E o Pearl Jam, hoje, não está mais preocupado em “ser artista”, apenas aproveita bastante a luz que já está posta para todos. A tarefa do artista não é fácil, e acredito que o Pearl Jam tenha relaxado. Talvez achem que já disseram tudo o que queriam, e não vejo problema nisso; só acho que ainda tem muito mais coisa a se tirar daquelas 5 cabeças (principalmente o Eddie), coisas que só eles podem perceber.

Ótimo, eles tem todo o direito de fazer o que quiserem – não estou exigindo nada, e não considero o Backspacer ou o Lightning Bolt discos ruins, apenas que carecem de alma. Não são obras, mas meros discos com músicas boas e legais. Foram gravados apenas porque estava na hora de lançar algo. Os fãs reclamam da demora para lançar um disco novo? Então vamos marcar uns encontros no estúdio e tentar ver se sai algo. Quem acompanhou as entrevistas sobre o Lightning Bolt sabe o quanto foi sofrido para os membros do Pearl Jam terminarem o disco.

Para completar, e tentar deixar mais claro, entendam “arte” como algo vindo do fundo do ser, algo que incomoda a pessoa e que, através da sua arte, procura-se um caminho, uma resposta. A arte, seja para agradar ou causar desconforto, tem de ser sentida. E o Pearl Jam, acredito, está em uma inércia, apenas compondo músicas porque é isso que eles fizeram desde sempre.

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Neil Young está prestes a lançar mais um álbum. É o 8o dele nos últimos 7 anos. O Pearl Jam, nesse mesmo período, lançou 2, e, ao que parece, sob pressão para ter algo nas lojas. Neil Young é, para mim, um exemplo de “artista” não porque lança vários discos, mas porque está sempre inquieto, sempre procurando algo – e tentando, através dessa procura – descobrir algo, entender o mundo. Os oito discos dele são apenas uma consequência de toda essa sede por tentar entender e comunicar algo para quem ouve a sua música.

Para concluir, podemos até chamar os membros do Pearl Jam atual de artistas, mas aceito o termo, e com ressalvas, apenas se for acompanhado da palavra “circunstancial”. São artistas circunstanciais, e “artistas”, aqui, entendido no sentido mais de entretenimento do que artístico – fazem música, compõem, apenas quando é necessário, e não porque precisam da música como forma de arte para dialogar e tentar compreender o entorno.

Ainda é cedo para relaxar. É preciso questionar.

 

Texto: João Felipe

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19 thoughts on “Pearl Jam: Artistas Circunstanciais?”

  1. Primeiramente, gostaria de pedir desculpa pela minha ignorância, de não conseguir entender… Se você acha que o Pearl Jam, não tem mais com o que contribuir o que você faz aqui ainda?
    Sem mais… entendo que vez ou outra, todos escrevemos coisas idiotas.

    1. Aqui, Guilherme:

      “Talvez achem que já disseram tudo o que queriam, e não vejo problema nisso; só acho que ainda tem muito mais coisa a se tirar daquelas 5 cabeças (principalmente o Eddie), coisas que só eles podem perceber.”

      Não é ignorância sua não, só acho que você não entendeu bem o artigo. Eu acho que o Pj tem ainda muito o que contribuir. Por isso esse artigo, por isso essa sensação de que dá pra fazer mais e melhor.

      1. Certo, fui um tanto impulsivo na resposta, pareci meio ríspido, (pois eu penso no trabalho de produção como um todo e acho que o texto pode ter me dado a impressão de desvalorização do produto final), mas entendo o seu ponto de vista (reli o artigo), li os comentários abaixo também, apesar de não concordar com todas as coisas… mas ok, todos vemos as coisas de perspectivas diferentes.
        Por lidar com música, fico me questionando se as pessoas entendem como funciona o processo criativo. É um tanto árduo, e nem sempre se chega onde se quer, mesmo que se tenha os sentimentos certos para escrever aquilo que está sendo sentido, ou atingir o objetivo almejado. Pode ser ser que funcione assim para as pessoas que dependem da criatividade para se expressar. O Pearl Jam, realmente já teve lá os seus altos, concordo plenamente que há trabalhos melhores, mas tudo está no “momento”, acho que o “momento” atual pede o que está sendo refletido no álbum… Acredito que uma banda como Pearl Jam não faria um CD apenas por fazer, apenas para vender… pois eles não precisam disso hoje em dia, já arrecadaram muito dinheiro, cativaram uma multidão de fãs, acredito que materialmente não lhes deve faltar nada.
        Como foi dito em um comentário anterior, hoje além da Banda eles têm outras prioridades e projetos também isso toma tempo, e também deve exigir muito deles, então pode ser que falte um pouco de foco “apenas” no Pearl Jam.
        É bom saber que há um processo de manutenção interna nas bandas, ainda mais aquelas que passam vários anos tocando as mesmas músicas, mesmo que não se tenha ideias geniais para escrever, é preciso continuar, pois é um exercício, um aprimoramento do intelecto, uma busca incansável pela música que vai expressar tudo aquilo que você quer dizer às pessoas.
        No processo de manutenção interna, destaco que SEMPRE é necessário ter algo novo, algo para inovar, ou caso contrário, se imagine tocando 3, 4, 5 ou mais vezes por semana aquele mesmo repertório… e daí, passe esse mesmo raciocínio para meses, anos. Mais do que contratos… trabalhos… fãs… Venho acreditar que essas produções não tão grandiosas, servem até mesmo como um modo de suportar a convivência, criar novos obstáculos a cada show, o cansaço, a fama, a falta da família diariamente. É preciso sair da rotina, criando novos desafios para superar juntamente com seus companheiros de estrada, porque no final das contas, isso é a “cola” que os mantêm juntos.

  2. João, entendo mais ou menos sua queixa, mas vamos ponderar, afinal de contas já são 25 anos de estrada e com o passar dos anos os caras vão se cansando da rotina Observe o tempo em que o RHCP, o U2, o Metallica, etc levam para lançar um álbum. O tempo vai passando e é natural que caras milionários como eles deem prioridades a outras coisas, como a família, por exemplo. Ah! E não esqueçamos que todos os membros do PJ são envolvidos em projetos paralelos e isso de certa forma atrasa o lançamento de um novo álbum. Pois é amigão, fique triste não. Vá ouvir o Yield pra relaxar!

  3. Acho que o principal aqui é a idade. Todos nós ficamos menos questionadores conforme a idade avança. Eddie Vedder, principalmente (por incrível que pareça é o que mais expõe a vida particular), está curtindo as coisas boas da vida… família, beisebol, surfe, amigos… A revolta passou, a maturidade chegou e todos nós chegamos em um momento da vida que, apesar de sempre ter voz pra gritar, decidimos dedicar nosso tempo à vida, ao que amamos. Porque a vida acaba (e não a certeza da morte o tema chave de Lightning Bolt?) e precisamos nos agarrar aos bons momentos enquanto podemos.

    Respeito sua opinião, João, mas acho que talvez você esteja confundindo as suas intenções com as que a banda deveria ter. A arte é a manifestação dos seus sentimentos e não precisam ser necessariamente de revolta, raiva, questionamento. Se você está feliz, compõe sobre outros assuntos tão validos quanto. O problema talvez esteja em ver a calmaria como uma coisa ruim, menos digna. Eles estão mais descompromissados, fazendo música por entretenimento, mas ainda assim uma arte sincera. Basta ver nos shows os caras se divertindo, e comparar com bandas como o Red Hot Chili Peppers, que hoje beiram a preguiça em palco, sem a menor entrega.

    Não nego a queda de qualidade dos álbuns antigos em relação aos últimos dois, principalmente. Eles estão se aproximando mais de Bruce Springsteen (outro modelo pra banda) do que pra Neil Young. Eu chutaria que o futuro da carreira tomaria os mesmos rumos do The Boss, com foco em shows, fãs, composições mais “old rock” do que algo com pegada experimental como Queens of the Stone Age ou Radiohead. Mas eles estão vivendo um momento, que vai durar o tempo que a vida cobrar deles… assim como é com todos nós. E alias, quem sabe as coisas não mudam? É um momento como a fase Ten foi, Yeld, e depois Binaural. Acho todos válidos enquanto a arte for sincera, mesmo que descompromissada, e isso ainda vejo o Pearl Jam fazendo.

    Abraço, João!

    1. Gostei do seu comentário! Descreveu bem onde a banda está atualmente.. Lembra o Springsteen sim! Mas você disse que não só da revolta, questionamento, etc, saem coisas boas. E com isso eu concordo plenamente. Não quis dizer que eles tem que estar revoltados com algo para fazer música boa, acho que dá pra fazer algo bom (melhor do que eles tem feito) quando estão mais tranquilos. A “calmaria”, como você colocou, não precisa ser vazia, com pouca criatividade, só acho que dá pra fazer muito mais a partir dela.

  4. Parabéns pelo artigo, João. Talvez a última pérola do Pearl Jam tenha sido feita pelo Mike e escrita aqui no Brasil: Inside Job. Adoro o Backspacer e o LB, mas parece que foram álbuns feitos sem aquela coisa visceral da banda… Os novos fãs da banda não imaginam a expectativa de um Binaural após um disco épico como foi o Yield. E a espera de um Riot Act após tudo o que aconteceu em Roskilde e a inquietude do Eddie com relação ao governo Bush. Talvez a eleição do Trump tire o Eddie desta “inércia”…

  5. Cara, vc descreveu aquilo que venho tentando explicar há alguns anos. Perfeito João!
    Essa é a mais pura verdade. Eles mudaram bastante e aquilo que originava de suas almas não são mais tão frequentes, sobrando add urgências de finalização de álbuns pra dar alguma resposta a seu lá quem.
    Acho que falta paciência, tema é motivação pra fazerem algo verdadeiro, algo Pearl Jam.
    Continuo gostando muito dos recentes, mas com saudades do genuíno Pearl Jam.

    Abs

  6. joão entendi o texto, para entender o texto também tem que ter um pouco de maturidade, entendi o que você tentou descrever você ama mesmo o pearl jam sabe ver o lado bom e o que precisa melhorar, abraços

  7. Do “Backspacer”, me lembro do impacto emocionalmente positivo que foi escutar pela 1ª vez, com o álbum original nas mãos, em minha casa (depois de todo mundo já ter escutado o disco zilhões de vezes pela internet), as músicas:

    – “Just Breathe”: chorava direto quando escutava pelas primeiras vezes, dizendo e digo ainda, que ela é do mesmo nível de “Black”, “Daughter” ou “Betterman”;

    – “Amongst The Waves”: lembro do refrão quando escutava pelas primeiras vezes, o tom lírico e super sentimental do Eddie, com uma levada que me fez lembrar das músicas do “Ten” ou como se tivesse ficado de fora desse mesmo disco;

    – “Unthought Known”: a levada crescente da música e do vocal realmente havia me surpreendido na época, sendo que na hora que o Eddie faz o seu vocal mais agudo na canção, aquilo na hora me emocionava nas primeiras audições e me fazia lembrar do grito épico de “Rearviewmirror”.

    Já do “Lightning Bolt” (na minha medíocre opinião, uma obra de arte fudida mesmo, no bom sentido), também me lembro das fortes sensações e sintomas de quando fui escutar esse álbum pela 1ª vez, também com o disco original em mãos, na minha casa (depois de todo mundo já terem feito os downloads na internet), sobre as músicas:

    – “Pendulum”: se fudê, cara… até hoje eu não consigo escutar essa música sem pelo menos lacrimejar os olhos. Ao lado de “Immortality”, umas das músicas mais cativantes que o Pearl Jam já gravou em estúdio (o que foi aquilo eles abrindo com essa música o show de Porto Alegre?);

    – “Yellow Moon”: essa é outra bandida…, ainda me emociono quando escuto também.

    Só citei algumas músicas, teriam muitas outras de cada um desses 02 discos para falar ainda…

    Achei sensata, interessante e construtiva a postagem feita pelo site… Nos faz pensar em cima da visão de outro fã fanático da banda… E que mesmo assim ficou claro o respeito do autor pela banda, sossegado, mano… (claro, não precisamos concordar com tudo, ok?)

    E fica uma sugestão pra galera nova das eras cibernéticas… Tentem escutar um novo álbum de estúdio, quando lançado, quando comprarem o disco original em mãos, forem correndo pra casa para escuta-lo no sossego do lar… Assim como eu fazia em 1991 até hoje! A sensação de escutar pela 1ª vez desse jeito é única, bem diferente da forma descartável, esbaforida e sem a devida qualidade sonora da internet… Talvez assim, a galera tenha novas perspectivas espirituais e sintomáticas sobre um novo disco, sentindo o cheirinho de material novo do encarte e das páginas do livrinho…

    1. Cara, é o ideal. Preciso aprender a controlar a ansiedade desde já pra não escutar um futuro próximo disco do Pearl Jam da maneira corrida, que estamos nos acostumando. Nada como a memória da primeira audição de um álbum. É sempre indescritível.

    2. Sim. Mto bom depoimento, Brunelson!

      Ouvir assim é massa mesmo. Ja fiz algumas vzs. O lance é ouvir algumas vezes inteiro e sem ficar fazendo outras coisas junto q é o caso qdo se esta na internet, a música fica ali de fundo, a atenção fica mais superficial, dividida, e a percepção da musica fica mais pobre.

    3. Não sei porquê o Backspacer e o Lighting Bolt são tão criticados. Acho ambos sensacionais, sobretudo o Backspacer.

      O que vc compartilhou sobre o sentimento de ouvir o CD físico traduz exatamente o que penso.

  8. Lighting Bolt modinha !!!!!! um disco fraco. hoje ouvir PJ e modinha e fácil hoje querer vim aqui e dizer sou fã, sou isso e aquilo (hei queria ver nos anos 90 ate 2000 como era dificil ouvir pj. Matt trouxe uma fraqueza pra banda isso é fato cara não sabe tocar as musicas originais , erra sempre, uma vergonha ouvir WMA RWM Go who are you na versao de matt obs ai versao (ALONE) dave https://www.youtube.com/watch?v=shUHbMVM9lQ agora matt https://www.youtube.com/watch?v=RTwbslJUtn8 ….

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