Sleight of Hand: a música em preto e branco

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Certa vez em algum lugar eu li uma frase muito impactante na minha vida, dita por Eddie Vedder. Não sei exatamente as palavras que ele usou, mas ele disse algo como “a interpretação de uma música depende do estado de espírito do ouvinte”. Talvez meu estado de espirito atual tenha me feito reencontrar Sleight of Hand.
Desde que voltei a pensar nessa música não tenho feito nada a não ser escutá-la o máximo possível, a ponto de estar agora escrevendo sobre ela.

Sleight of Hand é uma música do nosso insubstituível Binaural, de 2000. Só este fato já faz dela algo diferente e enigmática, como todo o disco.

Sleight of Hand é uma música fria. É notável a capacidade do Pearl Jam em reverter um cenário de show de Rock n Roll para algo tão solitário e intimo quando Sleight é tocada em seus shows.

A temática da música é sobre alguém que está preso em sua rotina e esqueceu de seus sonhos. Como em um truque de mágica, as coisas vão acontecendo sem ele perceber. A vida vai passando e o filme repetido acontecendo, e em Sleight of Hand o autor quase que ‘vomita’ sua confissão sobre tudo. Se um dia ele teve planos maiores, sonhos, tudo isso se perdeu em sua rotina, no cotidiano. Algumas fagulhas de esperança até aparecem durante Sleight mas prontamente são substituídas novamente pelas horas vazias de uma rotina que não faz sentido ao autor.

Toda essa confissão sombria é moldada por dedilhados profundos e melancólicos. A banda se completa com o cenário que fica escuro; afinal, esta é uma música em preto e branco. A bateria é cadenciada, a voz do Eddie triste. Mike vai fraseando os dedilhados de Stone, ao passo que o baixo de Jeff parece apenas acompanhar tudo isso isoladamente. No final de tudo um solo com muito delay e distorção para provar que, inevitavelmente, a poesia mais bela e tocante sempre é triste.

Não há redenção em Sleight of Hand. No fundo, sempre que eu presto atenção em tudo que engloba essa música (vocal, letra, melodia, harmonia e interpretação vocal), eu sinto, no fim, muita pena do personagem.

Como na vida real, Sleight exclama com força que a “rotina é o tema”.

Sleight é daqueles sons que, dependendo do teu estado de espírito, te derruba fácil, pois ela vai direto no coração. É a música mais pontual do disco nesse quesito.

É uma música poderosa, e não funciona em todas as ocasiões. Talvez por isso seja uma das menos tocadas do Binaural ao longo do tempo. Nos últimos 10 anos, por exemplo, ela foi tocada apenas 13 vezes.

O clima tem que ser propício para um som tão belo e triste.

O Pearl Jam tem a insana mania de pintar quadros tristes em preto e branco em forma de música. Sleight talvez seja o quadro mais escuro dentre todos.

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6 thoughts on “Sleight of Hand: a música em preto e branco”

  1. Penso que Sleight of hand e Inside Job definem os fãs dos não fãs da banda. Toda vez que alguém descobre a minha devoção pelo PJ e vem puxar assunto dizendo que também é muito fã eu já cito logo essas músicas. Se já sinto pouco conhecimento delas sei que é fã do Ten, não do Pearl Jam. A versão ao vivo dela mais linda foi tocada em Berlim 2014. Tomara que esse clima anti Trump faça com que o Eddie pese a mão nas letras do próximo álbum…

    1. Acho q todo fã do PJ está na expectativa por um próximo grande álbum em virtude disso.

      Ah! O que falar de Sleight of Hand?! Simplesmente fodástica!

  2. Sugestão:
    Colocar a música no post.
    Ler os seus brilhantes pareceres ouvindo a música em questão, seria uma associação perfeita.

    Luzia

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