Série Shows Históricos: Roskilde, O dia que não teve fim

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30/06/2000 está encravado na memória e no coração de cada fã do Pearl Jam como um dia triste. Nesse dia, 9 fãs morreram pisoteados durante uma apresentação do Pearl Jam no Roskilde Festival, na Dinamarca.

Muito já se falou sobre esse show, mas existem fatos que com o tempo perderam força, e queremos relembrar esse show que mudou todo o curso da banda.

A grande turnê Binaural estava à todo pique até chegar ao fatídico dia 30/06/2000.

Em 2000 o Pearl Jam fez 73 shows, e estava focado em muitos projetos para uma nova fase da banda. A ideia de tornar o Ten Club algo grande já vinha dos anos 90, mas com o Binaural essa ideia começou a se tornar realidade, a começar pelo fato do lançamento dos singles serem acessados diretamente no site, assim o fã poderia fazer o Download do arquivo e escutar em casa. No início do novo milênio, ainda era um tabu esse tipo de procedimento. Logo após o sucesso desse lançamento virtual, o Pearl Jam anunciou que iria colocar à venda todos os Bootlegs oficiais dos shows, com a qualidade obtida na mesa de som. Assim, era decretada a extinção dos Bootlegs piratas e da extorsão que era praticada por quem os vendia. No site do Pearl Jam, um Bootleg seria comprado por poucos dólares, e o fã teria um áudio de maior qualidade.

Esse era o Pearl Jam do novo milênio, uma banda que pensava no seu fã acima de tudo. Ironia do destino ou não, no dia 30/06/2000, uma banda que sempre prezara por seus fãs iria sofrer o duro golpe ao ver, na sua frente, 9 deles morrerem de maneira trágica.

30/06/2000

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Durante o a apresentação do Pearl Jam, na música “Daugther” (12ª do show), o Pearl Jam interrompeu o show ao ser avisado sobre um problema próximo às primeiras fileiras.

Eddie foi ao microfone e pediu para todos darem 3 passos para trás, para que os paramédicos pudessem entrar e realizar o resgate. Poucos minutos após a entrada do resgate já se constatara que haviam ocorrido óbitos. A tragédia estava consumada.

Os primeiros dias de investigação

Logo no anúncio do ocorrido, a apreensão por todas as partes foi enorme.
Muitos rumores surgiam a cada dia, e alguns davam conta de que o Pearl Jam iria se separar.

Outros diziam que a banda seria incriminada por ter incitado o público a agir da maneira que agiu.
O fato é que a única notícia oficial por parte da banda era de que o restante da turnê Européia havia sido cancelado, causando ainda mais rumores.

Este foi o comunicado oficial;

“Tudo isto não faz sentido, é muito doloroso. Nossa vida nunca mais será a mesma, mas sabemos que o que sentimos não é nada perto da dor que os familiares e amigos dos envolvidos no incidente estão sentido neste momento… foi uma tragédia”.

Solidariedade

Os dias subsequentes à tragédia foram de inúmeros gestos de solidariedade.
Os primeiros a abraçarem a banda foram os fãs. Choviam cartas no endereço da sede do Ten Clube em Seattle de fãs dizendo estar apoiando a banda. Foi criado, inclusive, um abaixo assinado de solidariedade para a banda. Cada e-mail enviado para o extinto endereço covertmo@aol.com, com nome, cidade e país, contava como uma assinatura.

Famosos também saíram em defesa do Pearl Jam.
Neil Young, Bono Vox, e mais notoriamente Pete Townshend vieram a público prestar seu apoio ao Pearl Jam.

Culpados

A primeira informação oficial por parte da polícia dinamarquesa foi a de que o Pearl Jam deveria ser considerado culpado pela forma com que conduziu seu show, incitando a violência do público que acarretou no descontrole dos presentes.

De acordo com as autoridades dinamarquesas, um estudo de caso havia sido feito e se constatou que o Pearl Jam “incita seus fãs a tais atos”.

Imediatamente, o gerente da banda, Kelly Curtis, afirmou que, embora seus shows sejam energéticos, o Pearl Jam jamais incitaria seus fãs a cometeram qualquer ato de violência.

Esta informação foi divulgada cerca de 20 dias após a tragédia. Até esta data, nenhum membro da banda havia dado qualquer declaração oficial.

Os primeiros novos passos

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Passados exatamente 33 dias da tragédia, o Pearl Jam voltou a subir ao palco. No dia 3/08/2000 a banda se apresentou em Virginia Beach para uma nova leva de shows da turnê Binaural.

Enquanto as autoridades não davam o veredito final sobre o ocorrido, Eddie, Jeff, Mike, Stone e Matt seguiram seus compromissos pelos Estados Unidos.

Sempre que perguntados sobre o ocorrido, eles diziam estar aguardando o julgamento.

O veredito

O relatório final da polícia concluiu que as nove pessoas que morreram, e quarenta e três que ficaram machucadas durante a apresentação do PEARL JAM no Festival de Roskilde, em 30/06/2000, foram vítimas do baixo volume do som da banda, pois na ânsia de ouvir melhor o show, cerca de 50.000 pessoas se precipitaram em direção ao palco; e isso, aliado à demora dos organizadores em interromper a apresentação para pôr “ordem na casa”, ocasionou a tragédia.

Este relatório veio a público no dia 27/12/2000, quase 6 meses após o ocorrido.

Reação da banda

Este foi o relato oficial da banda, divulgado em meio à espera do julgamento do acidente de Roskilde.

“Foi importante para nós aguardar e permitir a investigação para conferir os fatos em potencial que poderiam ter contribuído com a tragédia no Festival de Roskilde durante o show do dia 30 de junho. Lendo o relatório que foi liberado semana passada pela polícia dinamarquesa, gostaríamos de fazer alguns comentários:

Primeiro, como já dissemos anteriormente, não há palavras para expressar nossa angústia ante os pais e entes queridos destas preciosas vidas que foram perdidas durante a nossa performance em Roskilde. Nós devemos isso para todos que sofreram o impacto, todos aqueles que perdemos, todos aqueles que os amavam, todos aqueles que se machucaram e todos os fãs que costumam assistir nossos shows, para identificar qualquer possível fator que pode ter contribuído para essa tragédia.

Este é o nosso sentimento em relação ao que aconteceu no Festival Roskilde, que não pode ser descrito como “acidente maluco” ou “má sorte” – como alguns disseram. Quando algo desastroso como este fato acontece, quando muitas vidas são perdidas, é essencial que todos os aspectos sejam investigados completamente e sob todos os ângulos. Até agora, nós não sentimos que isso tem sido feito.

Nós faremos tudo que for possível para ter certeza que durante esta nova fase de investigação, todos os fatores possíveis que podem ter contribuído com as mortes e ferimentos no Festival sejam revelados e escrutinados. Se nós tomarmos conhecimento de algum fator que possa contribuir e que não tenha sido levado em consideração, nós o apontaremos e tomaremos providências para que o que aconteceu em Roskilde não aconteça novamente. E esperamos que promotores, produtores, pessoas da lei, profissionais da medicina e outros artistas façam o mesmo. Sempre existem coisas que podem ser aprendidas e, felizmente, que podem ser melhoradas para prevenir futuras tragédias desta natureza.

Especificamente, destacamos alguns fatos que estamos a par, e gostaríamos de ver uma investigação mais completa, incluindo:

  1. Segurança do Festival

É do nosso conhecimento que pelo menos 15 minutos se passaram entre a hora que um membro da segurança do festival identificou um problema latente e a hora que fomos informados. Nós paramos o show imediatamente após sermos informados que havia um problema, embora tivéssemos sido avisados para esperarmos até que a natureza do problema fosse identificada. É da nossa opinião que se tivéssemos sido avisados sobre este grave problema assim que a segurança do Festival o identificou, nós poderíamos ter parado o show mais cedo e vidas poderiam ter sido salvas.

  1. Sobre o atendimento de emergência

E, potencialmente, uma falta de adequados e/ou peritos qualificados, equipamentos médicos de emergência e ambulâncias para atender às emergências rapidamente e adequadamente. Nós temos muitas perguntas a fazer para os organizadores do festival e responsabilidades do posto médico, como: Quantos postos de saúde foram montados no local? Qual era o tamanho da tenda de atendimento? Havia um caminho visível para o posto médico entre a multidão? Quantas ambulâncias estavam no local para um evento desde tamanho e magnitude? Quais eram os tipos de equipamentos médicos estavam no local e quais eram as quantidades?

  1. Visibilidade do público que estava próximo do palco e da grade de proteção que ficou comprometida

Assim, tornou difícil, do palco, identificar os problemas latentes na multidão.

  1. Potencialmente, o consumo de álcool, ou a quantidade de álcool servido.

Foi noticiado que a polícia dinamarquesa nos acusou como “moralmente responsáveis” pelas tragédias ocorridas em Roskilde. Nós sentimos que fomos “moralmente responsáveis” por trazer a verdade com responsabilidade em relação ao que aconteceu aquela noite. A recente reabertura das investigações irá com certeza mostrar essas verdades.”

O dia que não teve fim, opinião

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O dia da tragédia sempre será lembrado. Mas temos de concordar que se existiu culpa de alguém, ela passou longe de ser da banda.

O show tinha uma expectativa de receber 100 mil pessoas. Nunca houve uma divulgação oficial, mas informações não oficiais dão conta de que cerca de 30 mil ingressos extras foram produzidos para o dia do Pearl Jam.

Ao decorrer dos anos a banda prestou todo o tipo de assistência às famílias dos mortos em Roskilde. Alguns familiares, inclusive, se tornaram amigos da banda.

Nada que a banda fez, ou faça trará os fãs de volta. Mas a atitude coesa e humana adotada ao longo de todo o processo investigatório e pós-trágico foi de uma grandeza que só poderíamos esperar do Pearl Jam.
Tudo que foi dito, sobre a banda ser culpada pelo ocorrido foi de maneira a não ferir a imagem primeiramente do governo Dinamarquês (polícia) e, segundo, o prestígio do Festival, que ocorre anualmente desde 1971 e é considerado um dos maiores da história.

Devido ao fato de ser impossível incriminar a banda, a polícia teve de ir aos fatos e analisar friamente, chegando à conclusão que a banda não teve culpa nenhuma. A culpa esteve com a organização do evento, que desde o inicio do festival vendeu ingressos a mais do que a capacidade de local e segurança ofereciam, que propôs um som péssimo (lembrando que em festivais, a organização sonora é por conta dos organizadores do festival) que fez com que os fãs de trás tentassem chegar mais perto do palco, e que demorou a entender que existia uma tragédia ocorrendo em frente aos seus olhos.

O show de Roskilde é sem sombra de dúvidas o show mais triste da história do Pearl Jam. Mas ao mesmo tempo é um show que deve ser lembrado sempre, pois “perdemos nove amigos que jamais iremos conhecer” (Love Boat Captain).

Demorou seis anos para o Pearl Jam voltar a encarar um grande festival. Em 27/08/2006 o Pearl Jam se apresentou no Reading Festival, e no próximo capítulo de Shows Históricos a gente conta como foi.

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2 thoughts on “Série Shows Históricos: Roskilde, O dia que não teve fim”

  1. LBC é uma bela homenagem. Como o Eddie muda a contagem dos anos é prova que um acontecimento como esse, por mais que o tempo passe, e já são 17 anos, não se ‘esquece’.

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