O Grunge Acabou Faz Tempo, Mas Ainda Deixa Marcas

43642794-Grunge-scratched-frame-Stock-Photo-grunge-texture-background.jpg

O movimento grunge sempre teve definições muito difusas, não temos uma fórmula para explicar o que é (ou era) uma banda grunge. As letras? O estilo de se vestir? Os riffs mais sujos de guitarra? Uma mistura disso tudo? Bom, se formos pensar nisso, vários movimentos do rock foram parecidos. Pensem nas diversas ramificações do Punk, por exemplo.

O grunge nasceu como uma variante justamente desse movimento punk anos 80, e misturado com uma dose bem forte de heavy metal. Como todo estilo musical, ele “cansa” uma hora, e as pessoas – fãs e músicos – procuram se reinventar; dessa forma, o estilo vai, aos poucos, se transformando, até que seja um estilo tão diferente a ponto de batizarem ele com outro nome.

Pois bem, o “problema” do grunge é que ele pegou tudo aquilo que estilos musicais como o punk e o heavy metal tinham (mas principalmente o punk): melancolia, angústia e revolta, e multiplicou tudo por 10, 100… A geração que era adolescente do final dos anos 80 pegou tudo aquilo que ouvia, juntou com a apatia do mundo em que viviam e fizeram a música mais visceral possível. Pensem na infância do Kurt Cobain, nos problemas familiares do Eddie. E agora juntem isso com o entorno da cena grunge, os questionamentos da adolescência…

Os poucos anos em que essas bandas – Green River, Mudhoney, Soundgarden, etc – estiveram imersos no movimento grunge da cena de Seattle foram suficientes para se criar uma espécie de marca, uma cicatriz que parecia adormecida. Aí veio o sucesso de bandas como o Nirvana e o Pearl Jam, e a coisa toda deslanchou para outros tipos de problemas como a fama, a exposição excessiva na mídia, e outras questões que não irei me aprofundar aqui.

O ponto que quero chegar é o seguinte: o grunge – com a sua atitude sombria, barulhenta e melancólica – plantou diversas sementes em pessoas como o Layne Stanley, Kurt Cobain, Andrew Wood, Scott Weiland, Chris Cornell e também no Eddie Vedder. Sementes que cresceram e mexeram muito com a cabeça daqueles jovens ainda imaturos e revoltados, mas de enorme talento artístico. E se juntarmos esse lado mais sombrio do grunge com o uso de drogas, por exemplo, temos uma fórmula fadada ao fracasso. Em pessoas como o Layne Stanley, Wood, Weiland e o Kurt, elas foram decisivas para acabar com a vida deles. E não falo só por causa da overdose, mas pelo uso pesado de drogas e por muito anos seguidos.

No caso do Chris – e me dói tanto colocar ele aqui nesse texto – ainda está tudo incerto. É provável que ele tenha se matado, e falam muito que ele estava depressivo e tomava remédios pesados para tentar melhorar. A coisa saiu fora do controle depois do show em Detroit e… Enfim, o resto vocês já sabem.

Na minha opinião, o Chris Cornell foi um exemplo de como aquela semente plantado no passado – durante a sua juventude, o começo do Soundgarden, etc – ainda estava muito forte nele. O problema de lidar com o sucesso, a fama, e a personalidade mais sombria e melancólica que se casou perfeitamente com o movimento grunge ainda rondavam a cabeça dele. E essa marca deixada foi tão forte que contribuiu para matar um cara aparentemente tranquilo – não esperávamos nunca que isso fosse acontecer. Quando o Layne Stanley se matou eu lembro de não ter ficado tão chocado… Ele sempre foi mais depressivo… Bastava ver o estilo de vida dele e principalmente as letras que escrevia.

 O Eddie sempre fala (no Hall da Fama por exemplo) que não estaria vivo se não fosse pelos amigos da banda e pela sua família. Ele já teve uma infância complicada, e ainda foi absorvido pela cena grunge da época, com todas essas coisas de que falei anteriormente pairando sobre a cabeça dele. E aí veio o sucesso, de uma hora para outra, e ele quase sucumbiu… Arrisco dizer que lá pelos anos de 1993… 1994… Havia uma boa chance dele ter se matado, ou ter virado um músico dependente de drogas, ou alcoólatra. Ele foi muito forte naquela época e hoje parece estar mais tranquilo – soube lidar com a fama e soube lidar com a carreia musical. De qualquer forma, esse passado ainda está nele. E esperamos que, caso algo sério aconteça na vida dele (por exemplo a morte de um grande amigo), ele não recorra ao espírito daquela época e tome decisões extremas.

Não quero dizer aqui que o Grunge foi algo ruim, ou que aquela época só trouxe coisas negativas. O Grunge foi algo que aconteceu naturalmente, fruto do espírito de uma época mais complicada e que oferecia àqueles adolescentes oportunidades interessantes: fazer a sua arte, escrever o que sentiam, compor o que queriam, etc, mas que também trouxe alguns efeitos colaterais fortes. O Chris sofria com alguns deles e acredito que isso tenha contribuído não para o suicídio diretamente, mas com um quadro mais depressivo que, aparentemente, já vinha de muito anos.

Não é coincidência que vários vocalistas daquela época (que estavam sempre no centro de tudo e tinham mais atenção) tiraram a própria vida. Quanto maior o tamanho de uma pessoa – e todos eles eram gigantes, gênios, cada um ao seu jeito – maior também o tombo, e eles não souberam lidar com tanta coisa. Alguém, ou algo, é culpado? Não. É apenas o mundo em que vivemos, a aleatoriedade das coisas que, às vezes, vai levando tudo para o caminho errado.

Chris, você vai fazer muita falta.

Texto: João Felipe Gremski

Anúncios

3 thoughts on “O Grunge Acabou Faz Tempo, Mas Ainda Deixa Marcas”

  1. Ótimo texto, João.

    Só acredito que o suicídio, a dificuldade de lidar com a fama, a pressão exercida pelo sucesso (o tempo todo você é criticado e obrigado a obter resultados melhores) não vem especificamente do grunge.

    O rock sempre nos deu exemplos de suicídio ou auto-destruição. A maioria de nossos ídolos, ou ídolos de nossos ídolos, sucumbiram diante dos exageros em que eles se apoiaram, seja para aguentar os problemas pessoais, seja para aguentar os problemas da vida artística. E não dá pra se limitar ao rock. Quantos artistas da música pop não morreram pelo mesmo caminho de Chris Cornell ou Kurt Cobain? Michael Jackson era viciado em drogas que “aprendeu” a usar por conta da vida famosa. Amy Winehouse e Whitney Houston também podem entrar nessa estatística, pra falar só de casos mais recentes. E dá pra fugir da música. Heath Ledger sucumbiu diante de remédios, Robin Willians viveu anos deprimido antes de colocar um ponto final em sua própria história… Jim Carrey, vivo, já admitiu que convive com a depressão.

    Acredito que esse peso, essa angustia, é muito vivenciada por quem lida com a arte em geral. No final essas pessoas que aprendemos a gostar, devido a demonstração de sua arte, caminham por territórios mais reflexivos, mais perigosos. Talvez pela sensibilidade que lhe são características, talvez por uma maior (ou diferente) percepção da realidade, do mundo ao redor. Talvez até por uma fraqueza sentimental, que assim como lhes levou a demonstrar pensamentos através da arte, também as “quebra” facilmente. Possuem, também por isso, fragilidades maiores e ficam reféns de bruscas mudanças de status… um dia ruim é muito mais perigoso para esses ídolos.

    O triste é que por mais que laudos, estudos ou pericias sejam realizadas nunca saberemos o que se passou na cabeça do Cornell naquelas horas em que ficou no hotel antes de sua morte. O que nos resta é aprender com o que fizeram esses grandes artistas, refletir sobre como podemos até fazer melhor e dar sequência aos grandes pensamentos que tiveram.

  2. Certamente as marcas mais fortes estão no psicológico de quem viveu nesse período da nossa história. A nostalgia hoje faz lembrar com saudade daquele tempo… e trás a angustia de volta como se as cicatrizes não tivessem fechado totalmente a ponto de abrir de novo com uma notícia como essa. Avassaladora. Nos faz ouvir um a música e assistir um clipe, como ‘Burden in my hand’ e interpretar quase como proféticas as imagens subliminares de produtores que pareciam conhecer bem seus clientes.
    Soudgarden foi uma banda única por possuir, dentre outras coisas, um grande vocalista.
    Gostaria de imaginar que Chris tenha encontrado a sua paz, e caso contrário, que ele dê um de seus gritos monstruosamente melódicos na cara dessa monotonia a qual vivemos hoje e nos ajude a entender o que está acontecendo com esse mundo.
    E que descanse.

  3. Galera… sou fã confesso e fanático pelo grunge… Nasci em 1979 e vivi toda aquela febre do grunge no começo dos anos 90 (e curto até hoje, tenho TODOS os álbuns originais do Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, Stone Temple Pilots, Smashing Pumpkins, Sonic Youth, Audioslave, Foo Fighters, Queens of The Stone Age, e etc e etc…), mas o que faltou pra toda essa galera aí que morreu, é Jesus Cristo no coração! Respeito a opinião de todos e daqueles que morreram, mas a palavra de Deus (a Bíblia) é somente relatos de uma época em que não existia a tecnologia de hoje.

    Imaginem se em 11 de Setembro de 2001 não tivesse a tecnologia que conhecemos hoje… As pessoas que viveram aquele momento horrível iriam escrever relatos para que, por exemplo, no ano de 3017, nós pudéssemos ler e acreditar naquilo (e realmente iríamos acreditar, porque não? É a história sendo descrita). Mas quando falamos de Deus e Jesus Cristo, a primeira reação é de hostilidade… Não temos hostilidade sobre Buda, Maomé ou Hare Krishna (respeito todas elas), mas é só falar do poder da vida eterna que a galera fica doida e braba.

    Não é a toa que no final da vida de cada um deles (ou em algum momento das suas vidas), o nome de Deus ou do seu filho, Jesus Cristo, foi citado em forma de ajuda ou de respostas…

    E Eddie Vedder teme à Deus, vide “Sometimes” e “Tremor Christ”… e para as músicas que a galera malha a pau onde dizem que ele fala mal de Deus (“Mind Your Manners, por exemplo), a mensagem está além das palavras literais… Dá-lhe metáforas construtivas e transcendentais…

    Desculpa aí galera…, não vou na Igreja e nem apoio nenhuma religião… Leiam Provérbios (velho testamento)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s