Análise: W.M.A

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Um álbum chamado Versus não poderia deixar de conter uma música com letra política nele. E nessa pegada a experimental, W.M.A cumpre seu papel de forma crua. Mesmo que incrivelmente o Pearl Jam tenha negligenciado maior atenção à W.M.A, a escolha do acabamento dessa música a deixou incrivelmente independente dentro de um disco tão amarrado ao que a banda vivia no auge do sucesso.

A bateria tribal, as vozes de Eddie ecoando, me fazem pensar que W.M.A é além de uma música, um ritual. Uma exclamação poderosa (a quem entender) sobre coisas que o mundo tenta abolir a séculos. De forma categórica, W.M.A seduz o ouvinte a coletar palavras soltas, dúbias e totalmente interpretativas, e ao longo dos seus quase 6 minutos ela vai aumentando sua intensidade e nos apresentando um instrumento por vez, mostrando-se dissecada e como eu disse anteriormente, crua.

Analisar W.M.A é viajar para dentro da cultura norte-americana (principalmente) e mundial de uma certa forma. O racismo existe sim, infelizmente. As referências à essa pratica criminal são encontradas ao longo de toda a letra de W.M.A. Aliás, W.M.A significa White Male American (homem branco americano), e principalmente em 1993 (ano da composição) os EUA viveram um período de grandes acontecimentos e revoltas populares contra policiais que agiam de forma violenta contra suspeitos (e as vezes não suspeitos) negros. Um caso em Detroid levou Vedder a rabiscar em seu caderno aquilo que viria a se tornar W.M.A, no verão de 1993. Um trabalhador negro desempregado teria sido puxado do carro e espancado até a morte por três policiais. Este caso resultou em uma série de protestos em todo o país.

Eddie ironizou de todas as formas a letra de W.M.A a ponto de usar referências bíblicas. “Jesus me cumprimenta / parece exatamente como eu” demonstra um olhar enraizado numa crença religiosa. A figura Jesus Cristo é usada como referência para citar as semelhanças entre “Deuses” e humanos, mas acima de tudo entre brancos e negros. A ironia nessa comparação paira na parte “me cumprimenta”, onde podemos entender que mesmo Jesus (polícia) estando acima dos humanos (negros), existe respeito, ou supostamente deveria existir. Extraordinária a categoria de Vedder ao colocar esse trecho em W.M.A.

“Ele ganhou na loteria quando nasceu” é uma referência a quem nasceu branco e livre dos ataques aleatórios.

Todas as ironias terminam na parte final da música, onde somente uma frase é repetida várias e várias vezes “All my pieces set me free / human device set me free” (Todos meus pedaços me fizeram livre / As regras dos homens me fizeram livre), aí sim transformando W.M.A em uma espécie de ritual de purificação. A frase é repetida como se fosse um clamor aos deuses.

W.M.A é um cuidadoso registro dentro do poderoso disco V.S que começa a desenhar o Pearl Jam que conhecemos hoje. Pearl Jam está sempre envolvido, engajado, desde os primórdios. Não tão visceral quanto outras músicas com o mesmo contexto, W.M.A cumpre sua tarefa de alertar para a situação. Uma grande música quase que esquecida dentro de um álbum tão eloquente na carreira dessa incrível banda.

Texto: Cristiano Feix

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