Como o Abacate se Tornou o Vinho do Pearl Jam

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Virou praxe. Toda vez que o Pearl Jam lança um disco novo, comparações com os discos anteriores surgem e, inevitavelmente, recordamos aquela banda dos anos 90, com sua energia e ideais. Lembramos do Eddie como letrista naquela época, o escape que ele encontrou na música para lidar seus problemas pessoais. Em 2006, quando o Abacate foi lançado, recordo que as mesmas comparações com o Pearl Jam dos anos 90 estavam sendo feitas, contrapondo a falta de criatividade, a piora na voz do Ed, a falta de interesse por levar 3 anos e meio pra lançar um disco novo após o Riot Act em 2002, as participações ditas “exageradas” do Matt nos vocais de apoio… Enfim, quem acompanhava os fóruns de discussão e conversava com outros admiradores da banda deve se lembrar das críticas ao Abacate.

Mas por que o Abacate é tão interessante e bom, e por que continuará sendo e tem tudo pra ser lembrado como um dos melhores discos do Pearl Jam? Minha resposta mais rápida pra essa pergunta é: 11 anos se passaram desde seu lançamento e ele ainda é atual. Isso é diferente do que aconteceu com o Riot Act e o Binaural, os dois discos mais melancólicos do Pearl Jam. O Binaural mostrou um Ed perdido com a vida e com suas habilidades de compor. Muitos comentam sobre a grande participação dos outros membros nas composições do Binaural ter se dado pelo fato do Ed ter tido algum tipo de bloqueio criativo. Por outro lado, no Riot Act tivemos temas importantes sendo tratados: o acidente de Roskilde e as críticas ao governo Bush. Estes dois temas permearam e moldaram grande parte da história do Pearl Jam nos anos 2000. Mas acontece que, embora tenham sido importantes, eles se tornaram anacrônicos. Ouvir Bushleaguer hoje é uma das coisas mais chatas que tem, pois não há mais contexto. Alguns podem tentar ligar com uma “Trumpleaguer”, mas aparentemente nem a banda faz essa alusão. Isso é representado pelo fato de terem abandonado a canção (a última vez que a tocaram foi em 2007, quando Bush ainda era presidente). O acidente de Roskilde, com I Am Mine e Love Boat Captain principalmente, também nos remonta a algo passado e triste. Embora tenhamos aprendido muito sobre a importância do amor com nossos semelhantes através delas. A esse ponto, muitos podem estar achando que estou criticando duramente o Riot Act e o Binaural. Na verdade, o Binaural pra mim faz parte da trilogia sagrada do Pearl Jam, junto com o No Code e Yield. Mesmo assim, a banda do Abacate não é mais aquela banda ingênua dos anos 90.

A tristeza da banda resultou no Binaural e no Riot Act. No primeiro, a tristeza e melancolia pelo divórcio do Eddie, pela perda de amigos queridos. No Riot Act, a tristeza de um governo desastroso, de um acidente doloroso pra banda. E o Abacate foi essencial para quebrar a melancolia do Pearl Jam, para acabar com essa tristeza e mostrar como a banda aprendeu a superar essas questões. E como isso nos serve de inspiração. E por isso o Abacate é atual, e continuará sendo. A falta de esperança, a falta de experiência da vida, bem como muitos questionamentos retratados de uma forma que hoje acho esperançosamente “ingênua”, deram lugar à uma maturidade da banda em lidar com questões espinhosas. O que era medo se tornou esperança. O que era dor se tornou experiência para lidar com questões que nos abalam. A morte do Johnny Ramone, que o Ed considerava seu melhor amigo, não o tornou melancólico como no caso do Binaural e Riot Act. Pelo contrário. O que dá pra sentir é que as emoções vividas por ele entre 2000 e 2005 moldaram um sujeito forte, maturo, para lidar com qualquer coisa que fosse obstáculo. Toda a inocência que o Ed clama ter perdido em I Am Mine só se concretizou no Abacate. Só foi digerida no Abacate. E a banda se transformou desde então. Se antes a banda demonstrava medo, esse medo se tornou motor para coragem, ambição. Grandiosidade.

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E preciosidades saíram disso: Gone, Inside Job, Come Back de um lado; Life Wasted, Marker in the Sand, Severed Hand do outro. É possível notar nas músicas do Abacate como a banda estava em sintonia. Estavam afinados e acertaram a mão, ao mesmo tempo em que se permitiram arriscar. E, hoje, todas essas canções podem ser cantadas no contexto atual, pois ainda assim são questões que nos encaram todos os dias.

Tive a felicidade de acompanhar a banda (não pessoalmente) na tour de 2006, vendo os setlists, baixando os bootlegs naquela época gloriosa em que os shows eram disponibilizados no dia seguinte e não meses depois. Foi a última grande turnê do Pearl Jam. E como foi incrível. Se eu pudesse voltar no tempo e acompanhar alguns shows, certamente seria dessa turnê.

Na época surgiu um comentário que a capa com um abacate tinha sido escolhida por que, mesmo podre, ele tem uma semente que pode renascer. Bobagem. A própria banda já disse que escolheu ele por acaso, sem sentido algum. Na verdade, se o sentido fosse esse poderiam colocar qualquer fruta, ou tirar uma foto de uma quitanda com tipos diferentes de frutas. Ou poderiam colocar uma Fênix, a ave que na mitologia renasceu das cinzas. O fato é que o Pearl Jam não estava morto, e não podemos pensar no Abacate como algo isolado. Mas, sim, como algo que foi moldado pela experiência da banda, algo que foi curtido, fermentado conforme foram passando por todos os anos 90 e começo dos anos 2000. Se tornou o melhor disco do Pearl Jam desde o Binaural. E, assim como os melhores vinhos, quanto mais velho fica, mais se mostra como é incrível e como pode revelar sensações e sentimentos antes não perceptíveis.

Texto: Luiz Henrique Varzinczak

Leu até o fim? Obrigado! Aqui vai um brinde: https://drive.google.com/open?id=1KftSvdVSnvW61w8C5MvFBTjfxnFJFIUq

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14 comentários em “Como o Abacate se Tornou o Vinho do Pearl Jam”

  1. Coisarada esse álbum aí, assim como a resenha… Me lembro de comentar com os meus amigos na época do lançamento, tipo: “Os caras chegando na casa dos 40 anos e lançando um álbum quebraceira”.

    Até hoje fico na dúvida se o álbum mais quebraceira deles é o Abacate ou o Versus…

      1. Boa! Se o Vitalogy não tivesse aquelas 04 músicas que os caras “avacalharam” (no bom sentido, curto todas), são elas: “Bugs”, “Pry To”, “Aye Davanita” e “Stupid Mop”, também ficaria na dúvida entre os 03 discos… Massa!

  2. Álbum que tem Inside Job (melhor música do século) e Marker in the Sand (refrão inigualável)… nao precisa de mais nada.

    Ponto.

    ABS e viva PJ
    SP… Maracanã e Argentina…. estaremos lá!!!

      1. ah é ? mais da ultima vez eles ficaram la se não me falha a memoria! tem ideia de onde a banda vai se hospedar?

  3. Muito bom o texto! O Abacate é um grande disco! Comparar discos é desnecessario, cada um é especial do seu jeito e tem seu valor próprio.

    Retiraram o brinde? Teria como colocar novamente? 😀

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