Guaranteed

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“Guaranteed” fecha o álbum que é trilha sonora do filme “Into the Wild”, história real de um jovem que abandona tudo que tem para realizar um sonho: viver na natureza, longe de tudo e de todos. Ele tem tudo: família, amigos, estuda em uma excelente universidade, etc; todas as coisas que completariam uma pessoa. Mas o personagem, Christopher Mccandless, decide fugir e deixar tudo para trás.

O que compele uma pessoa a abandonar tudo e partir em uma viagem para o Alaska, onde o frio e o isolamento servem apenas para complicar uma vida de ermitão? O que faz com que nos sintamos como que atraídos para algo diferente, longe das luzes de uma cidade, longe de uma vida regrada e limitada àquilo que a sociedade define?

Eddie Vedder, em uma das suas melhores letras, não nos dá uma resposta. “Guaranteed” é uma oração pagã, um eterna procura por entre o interior das pessoas e o reflexo delas projetado diante de um mundo que não satisfaz mais, não preenche mais os desejos humanos. O Eddie nos dá dicas mais claras em outras músicas do álbum (boa parte das músicas se completam nesse quesito), mas em “Guaranteed” isso não acontece, e é o que a torna única, mística e de uma introspecção singular.

Há certas estrofes que fogem do  meu entendimento, elas são misteriosas e abertas a várias interpretações, por isso, coloco aquelas que mais me dizem algo, mais me tocam, e que, num todo próprio, tornam a música bela e tocante.

On bended knee is no way to be free

Lifting up an empty cup, I ask silently

All my destinations will accept the one that’s me

So I can breathe...

 “Ajoelhado não é um caminho para ser livre,

levantando um copo vazio, eu perguntei silenciosamente.

Todos os meus destinos irão aceitar aquele que sou,

Para que assim possa respirar…”

O primeiro verso tem algo de anti-religião; ao estarmos ajoelhados, rezando para algo, esperando e pedindo, não teremos como ser livres. Temos que nos levantar e esquecer que algo maior possa estar nos olhando. É claro que aqui o “ajoelhado” pode significar “imóvel”, fixo”, mas a metáfora religiosa é muita mais poderosa e condizente com o contexto. Pois bem, ele chega a essa conclusão enquanto levanta, silenciosamente, um copo vazio; mas seria vazio de algum líquido? Aqui me parece que esse copo vazio simboliza uma vida sem respostas e um cotidiano que não representa mais nada: “não há como ser livre, perguntei para mim mesmo enquanto levantava um copo vazio”- essa imagem é linda e ao mesmo tempo melancólica; é uma cena que nos apresenta uma pessoa sem futuro, que perdeu o seu rumo na vida.

O terceiro verso é de uma beleza ainda mais marcante: a partir do momento que sair desse lugar, todos os outros (lugares) irão me aceitar do jeito que sou, sem preconceitos ou ideias pré-concebidas, para que, livre, eu possa respirar em paz. Quando viajamos, nos sentimos livres, e, ao olharmos o nosso entorno, tudo parece novo e aberto a novas descobertas.

(Não quero falar de “Guaranteed” como se ela fosse uma história [embora eu esteja descrevendo ela dessa forma até o momento]; como disse antes, ela é misteriosa, e toda estrofe parece significar uma coisa diferente, uma história diferente, por isso a complexidade de tons que ela nos apresenta.)

Continuando…

Circles they grow and they swallow people whole,

Half their lives they say goodnight

to wives they’ll never know,

“Círculos crescem e engolem o todo das pessoas,

metade das suas vidas eles dizem adeus à esposas

que nunca irão conhecer,

Aqui a coisa complica um pouco (o que é ótimo!). Círculos aqui pode ser entendido como desde um grupo de pessoas, a população de uma cidade, país, até mesmo um círculo entendido como um ente abstrato, um anel que envolve aquilo que somos e acaba nos sufocando. Ao aliar essa última interpretação com nós, seres humanos, podemos dizer que o mundo cresceu de uma forma que, ao invés de preservar a empatia e a bondade, acabou nos sufocando.

A situação é em seguida particularizada, e descreve um relacionamento amoroso em que o casal, mesmo dizendo boa-noite todos os dias para o seu parceiro, mal se conhece. As relações humanas, desde um nível macro, em que ninguém se olha mais nos olhos e estabelece um vínculo, até algo particular, como a relação de duas pessoas, estão comprometidas, e apenas se cumprimentar, e manter uma relação artificial, não significa nada.

A mind full of questions,

and a teacher in my soul 

And so it goes…

“Uma mente cheia de perguntas

e um professor na minha alma,

E assim por diante…”

Nesses três versos a situação se volta mais para o interior de cada pessoa e expõe tanto a nossa mente, cheia de perguntas, quanto a nossa alma e a consciência que está sempre lá, aprendendo e ensinando tudo aquilo que vem de fora, das relações com o outro, moldando o nosso caráter. (aqui a interpretação é bem livre, fico em dúvida do que ele quer dizer acima).

Don’t come closer or I’ll have to go

Holding me like gravity are places that pull

If ever there was someone to keep me at home

It would be you…

 “Não chegue perto ou eu terei que partir,

Tal como a gravidade, são esses lugares que me puxam.

Se alguma vez alguém me manteve em casa,

Certamente seria você…”

Quem perguntou o significado desse primeiro verso foi ninguém mais ninguém menos que a filha do Eddie, e a resposta dele foi: “Se você soubesse o que isso quer dizer…”. Essa resposta mostra o quanto cada verso é misterioso e, ao mesmo tempo, complexo, vem lá das profundezas da cabeça dele, certamente relacionado a alguma experiência passada.

Essa estrofe nos mostra um aprisionamento; como se o lugar que ele chama de casa estivesse o prendendo, não permitindo a mudança. Esse “não chegue perto ou eu terei que partir” é obscuro e passa uma sensação de medo; parece que a realidade assusta e ele fica num canto, esperando uma oportunidade de fuga. No verso seguinte a situação de aprisionamento é comparada à gravidade, força que nos mantém com os “pés no chão”, exatamente aquilo que esse “eu” não deseja mais para a sua vida.

Os dois últimos versos da estrofe podem estar relacionados a uma pessoa, a um objeto, ou até mesmo a um sentimento. Algo que está presente no cotidiano dessa pessoa e que, de certa forma, seria o único motivo de mantê-lo no mesmo lugar. Ou seja, embora haja essa necessidade de fuga, algo sempre vai fazer a gente se lembrar de onde partiu; como disse antes, é mais provável que seja uma pessoa, mas, na verdade, pode ser qualquer coisa.

Everyone I come across, in cages they bought

They think of me and my wandering,

but I’m never what they thought,

Todas as pessoas que cruzo, em jaulas que elas compraram,

pensam sobre e mim e minhas perambulações, e eu nunca

sou aquilo que elas pensam.”

Aqui temos esse sujeito perambulando por lugares e encontrando pessoas, todas em suas jaulas – presos pela sociedade, presas por suas próprias crenças, vivendo uma vida ordinária – e pensando/julgando esse sujeito que decidiu sair desse entorno e seguir um rumo indefinido; e claro, esse “eu” nunca é aquilo que eles julgam ser (e ter que ser, de acordo com os padrões impostos). Esse trecho nos expõe (e acaba nos ensinando) algo que está claríssimo em nossa sociedade mas que parece que tentamos suprimir dos nossos valores: a ideia de que todos temos que atender a princípios pré-estabelecidos. A partir do momento que saímos desse padrão, somos considerados estranhos e imediatamente excluídos dessa organização cuja primeira e única regra é: siga-nos, siga essa linha e não invente caminhos alternativos.

Mas voltando à letra, temos agora uns dos versos mais fantásticos de Guaranteed:

I’ve got my indignation,

but I’m pure in all my thoughts

I’m alive…

“Tenho minha indignação mas sou puro

nos meus pensamentos,

Eu estou vivo…”

Aqui é mostrado o quanto esse sujeito não é alheio a essa sociedade – ele se revolta e questiona tudo que acontece; e as indignações estão sempre lá, mas a pureza daquilo que entende do que vem a ser a vida continua intacto e vivo. Isso mostra o quanto a pessoa, para manter-se fiel aos seus princípios, deve, acima de todas as coisas, permanecer fiel consigo mesma; manter os pensamentos puros e livres, mesmo com todos os problemas que possamos ter.

Wind in my hair, I feel part of everywhere

Underneath my being is a road that disappeared

Late at night I hear the trees, they’re singing with the dead

Overhead…

Vento em meus cabelos, sinto-me parte de todos os lugares

Sob meu ser está uma estrada que desapareceu…

Tarde da noite eu ouço as árvores, elas estão cantando com os mortos,

Acima de mim..”

Se a estrofe anterior falava de aprisionamento, essa acima (a mais bela de todas) fala da sensação de liberdade. E aqui a ideia do vento não poderia ser mais perfeita; estar em um lugar aberto, com ar puro, e sentir o vento bater no rosto, talvez seja um dos momentos mais autênticos de contemplação da liberdade, e, para deixar a imagem mais perfeita ainda, o primeiro verso é acrescido de “sinto-me parte de todos os lugares…”. Lembram-se daquele verso lá na primeira estrofe, “All my destinations will acept the one thats me”? Pois bem, estando em um lugar que me aceita do jeito que sou faz com que eu me sinta parte desse todo, parte de tudo.

O verso seguinte (“sob o meu ser está uma estrada que desapareceu”) mantém o “nível de beleza” da estrofe e prova que essa pessoa, embora sinta-se livre, será sempre uma estrada que desaparece. Sob esse ser sempre haverá a dúvida, o medo, tudo rumando para um destino inexistente. Ao declarar isso, o “eu” dessa música mostra que não apenas o seu exterior é o de alguém que não tem um rumo definido, mas o seu interior também é misterioso e aberto ao que vier.

Nos dois últimos versos temos uma contemplação do seu entorno, e diga-se de passagem, é um entorno obscuro e extremamente poético: as árvores que, ao som do vento, balançam e cantam com os mortos. O silêncio, o isolamento, e sobretudo a mística desse lugar são incontestáveis; ele está sozinho, mas não ouve o canto dos pássaros, o rumorejar dos rios, etc. Ele ouve uma espécie de sinfonia para os mortos. Se existe uma imagem tão sombrio e ao mesmo tempo tão bela, é sem dúvida essa estrofe como um todo. E nela o Eddie chegou ao ápice da sua poesia e do que ele consegue fazer com as palavras.

Leave it to me as I find a way to be

Consider me a satellite, forever orbiting

I knew all the rules, but the rules did not know me

Guaranteed…

“Deixe comigo que eu encontro um jeito de ser

Considere-me um satélite, sempre orbitando

Eu conhecia todas as regras, mas as regras não me conheciam,

Com certeza.”

A estrofe final é uma conclusão de todos esses devaneios expostos anteriormente, e esse “eu” parece serenar quando percebe que esse decisão de estar à parte do mundo é a melhor coisa para ele. Pode me deixar em paz, eu encontrei aquilo que desejava. E a metáfora do satélite é ótima para expressar aquilo que ele está sentindo: satélite, aquele objeto sempre distante mas ao mesmo tempo sempre presente na nossa vida (basta pensar na Lua). Um satélite não é algo que desaparece, que some e nunca mais é visto, ele apenas está em um lugar à parte, orbitando, contemplando tudo de longe, em paz.

Os dois últimos versos da música são apenas para reforçar esse estado de rebeldia, não uma rebeldia adolescente, mas um sentimento de que realmente o “eu” sente-se diferente do mundo. Ele conhece as regras, sabe como o mundo funciona, mas o seu interior não as reconhece como verdadeiras, como parte dele. Pelo menos sabemos que regras existem, mas quem as criou afinal? E porque devemos segui-las sem questionar nada, sem ter a opção de simplesmente não aceitá-las?

Esse sujeito da música chegou a um estado de espirito superior, e encontrou, ainda que sem segurança de tudo (afinal, como podemos estar sempre inteiramente seguros das nossas decisões), uma paz interior.

“Guaranteed” é uma das músicas mais poéticas que o Eddie fez. Ele conseguiu unir à poesia uma sensação de leveza mas ao mesmo tempo um ar obscuro de mistério. O violão repete-se em seus acordes durante toda a música e parecem refletir essa caminhada que esse sujeito está empreendendo, cada mudança de acorde parece uma nova direção que ele decide tomar nesse caminho. Os sussurros ao final acrescentam um ar de mística e recaem como um adereço final a uma música que já é perfeita apenas por existir.

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