Light Years

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Da mesma forma que o álbum a qual pertence, Light Years começa melancólica e inconformada. A luz no final do túnel, conhecida pelo nome de Yield, era apenas um trem vindo na direção do Eddie. Um álbum que começa com um grito raivoso (Breakerfall), em seguida critica de forma irônica um Deus que brinca com os humanos (God’s Dice), e clama por uma fuga desesperada (Evacuation) só poderia ter uma música como “Light Years” como continuação da melancolia; agora o tema é a morte, mais especificadamente a morte de um amigo. Não há informações claras de quem é essa pessoa, mas o single (versão em Cd) dá um dica: um desenho de duas pessoas e dois nomes, “Monia” e “Ince” (foto abaixo). De qualquer forma, pouca diferença faz saber, o que interessa é que é uma música escrita para uma pessoa que se foi.

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A bateria dela começa arrastada, triste e, ao mesmo tempo, pesada. Ela indica que algo difícil de entender aconteceu, tudo agora é sombrio, restando a quem ficou o luto e a lembrança dessa pessoa. Essa introdução apenas com a bateria já transmite um clima singular à música e é difícil achar algo semelhante ao procurarmos no catálogo da banda (“Not For You” talvez); aos poucos e de maneira muito tímida, vai surgindo um som de guitarra, este também triste e arrastado, e aos poucos tudo vai crescendo, se formando, até chegar o momento em que entra a voz do Eddie com todos os seus lamentos e arrependimentos.

Perfeito. Esse inicio é tão denso para mim que não há uma única vez que eu não me emocione, pareço pressentir o que está por vir ao longo dos versos, a dor, a tristeza. Desde a primeira batida da bateria, sozinha e pesada, passando pelos primeiros acordes da guitarra, que avançam em um crescendo e culminam com a entrada do Eddie, tudo isso é tão forte e ao mesmo tempo tão delicado. O mais incrível de tudo é que a música mal começou.

Antes de entrar na letra, quero dar ênfase, mas muita ênfase, na voz do Eddie nessa música; ela é tão vulnerável, que chegamos a sentir na pele a dor que ele sente ao cantar. Ele parece cantar ela de maneira forçada, arrastada, como se não quisesse dizer tudo aquilo mas algo o impelisse a fazer; uma necessidade de colocar tudo pra fora e sentir com mais força essa dor. Ao cantar com essa vulnerabilidade, ele não só demonstra que seus sentimentos são verdadeiros, como acrescenta à melodia um casamento perfeito; toda a “Light Years” é completa, una, tudo nela é uma única coisa: a dor de uma perda. Quem perdeu alguém querido sabe do que estou falando: relembrar a pessoa, o que você costumava fazer com ela no dia-a-dia, e saber que agora ela está longe; mas longe em que sentido? Anos-luz é uma medida absurdamente grande, nada melhor para expressar essa distância que agora ele está, ou sente estar, desse amigo/a querido.

Além disso, todo o instrumental dela é como deveria ser; uma música muito lenta deixaria ela fraca, sem consistência, por outro lado, uma música muito pesada faria com que o sentido fosse perdido. Isso faz me lembrar a “Sad”; ela, da mesma maneira que a “Light Years”, equilibra bem essa melodia leve-pesada, o que, para mim, faz com que ela fique muito melhor e mais completa, passando a mensagem de maneira que todo o sentimento seja transmitido. A equação, se é que posso comparar com isso, está equilibrada; “Light Years” é perfeita.

Agora vamos à letra.

“I’ve used hammers made out of wood
I have played games with pieces and rules..
I’ve deciphered tricks at the bar…

But now you’re gone,… I haven’t figured out why…”

Eu usei martelos feitos de madeira
Eu joguei jogos com peças e regras..
Eu decifrei truques no bar..

Mas agora você se foi e eu não consigo entender o porque…

A primeira estrofe já começa com a palavra “Eu” iniciando os três primeiros versos; isso já deixa claro que ela é uma espécie de confissão dessa pessoa. No caso, o Eddie relembra tudo aquilo que costumava fazer com essa pessoa ou o que fazia na época em que essa pessoa era viva. Essa ambiguidade perdura até o final: a) será que ele simplesmente está saudoso com um tempo que já se foi, tempo este em que ele fazia essas coisa descritas, não necessariamente na companhia dela, ou b) será que ele fazia essas coisas com essa pessoa e agora que ela se foi não há mais a chance disso acontecer novamente.* Com relação a explicação acima, dois comentários colocaram ideias muito interessantes e que realmente fazem bastante sentido: 

*Marcelo disse que ele era um cara esperto, que sabia fazer as coisas, jogava jogos de peças, decifrava truques, etc.. Mas não conseguiu evitar essa perda. Ótima colocação! Só não consigo aceitar o fato dessa ser uma música romântica, em que a mulher amada abandona essa pessoa. Tudo indica que ele escreve para alguém que morreu.

E um outro comentário, da Tati, acrescentou uma outra ideia muito interessante: “Pra mim ele quis dizer que ele inconformado com a perda, tentando entender o porquê , conseguiu decifrar numeros e sentimentos e palavras, MENOS o porquê dessa pessoa ter sido levada dele.” E realmente, isso também faz bastante sentido.Ou seja, temos duas ótimas interpretações sobre esse trecho!

Obrigado pelo “toque”! E por me ajudar a entender melhor essa parte que eu tinha minhas dúvidas!

Pois bem, ele costumava usar martelos de madeira, jogar jogos de peças, decifrar truques de bar. Mas, o que é isso? Qual é o contexto de cada uma dessas atividades e porque a lembrança dessas coisas banais para o Eddie é tão importante? Pode ser banal para nós, mas para ele isso é muito importante e faz lembrar a pessoa que se foi. Desde a primeira vez que ouvi a “Light Years” sempre adorei esses versos; tudo passa do (aparentemente) banal dos três primeiros versos para algo direto e profundo: “mas agora você se foi e eu não consigo entender o porque”. Pronto, temos a colocação que justifica os versos anteriores. Minha vida era essa: simples, lúdica e leve, mas agora você se foi e tudo mudou. Você se foi e eu não consigo entender o porque. Essa frase é tudo para entender a música; esse vazio súbito deixa o Eddie perdido, sem norte, sem entender o porque de tudo. Isso o deixa transtornado e faz com que a única coisa que resta seja lamentar-se e continuar revivendo as lembranças de um tempo que se foi:

“I’ve come up with riddles… and jokes about war…  I’ve figured out numbers and what they’re for…I’ve understood feelings.. and I’ve understood words… But how could you be taken away?…”

Eu cheguei com enigmas/adivinhações, e piadas sobre guerra…
Eu decifrei números e para o que eles servem…
Eu entendi sentimentos.. E eu entendi palavras…

Mas como você pode ter sido tirada de mim…

A enumeração de atividades cotidianas do dia-a-dia do Eddie continua. Atividades lúdicas, piadas, adivinhações, números (cálculos? Algum jogo?), tudo parecia ser muito leve e divertido; o relacionamento dele com essa pessoa parecia ter muitos anos, há uma intimidade envolvida. E não vamos esquecer: tudo é cantado de forma vulnerável e inconformada… Ele canta em um puro lamento.

Os dois últimos versos passam daquela esfera do banal e repousam no abstrato: “Eu entendi sentimentos, palavras…” Ou seja, a relação dele com essa pessoa não era só de atividades lúdicas, brincadeiras, jogos, envolvia também sentimentos e palavras ditas, trocadas. E, assim como na estrofe anterior, o último verso se questiona, deixa no ar uma pergunta dolorosa, embora seja feita apenas retoricamente (‘Mas como você pode ter sido tirada de mim…’’). Não há nada para se fazer, mas ele fica se perguntando, tentando entender o porque disso ter acontecido.

“And wherever you’ve gone…and wherever we might go…

It don’t seem fair…today just disappeared…”

E para onde quer que você tenha ido, e para onde quer que nós possamos ir…

não parece justo, o hoje desapareceu…

A partir daqui o Eddie toma um rumo mais denso e desolado. Seus questionamentos continuam, mas as perguntas são direcionadas a quem? Mesmo sendo questionamentos retóricos há um inconformismo com tudo, há uma vontade de saber mais; o fato dessa pessoa ter partido sem deixar nenhuma resposta para a tragédia incomoda muito o Eddie.

Não importa para onde você tenha ido, não importa para onde iremos quando morrermos, não há justiça nesse acontecimento. Finalmente, depois de “divagar” ao mencionar acontecimentos banais,  os versos agora se voltam para algo mais subjetivo: a morte. Mas aqui ela é tratada com indiferença, e o que interessa é o “aqui”; o fato dessa pessoa não estar mais no meio de nós é o que mais incomoda e dói.

“Eu não vejo justiça”; é isso, simples, nada do que acontece é justo, mas a frase seguinte é linda: “o hoje desapareceu”, essas três palavras dizem tanto com tão pouco. Todos os dias são “hoje”, por isso a dor será para sempre, todos os dias, todos os “hojes” da sua vida. Essa imagem é tão bela quanto melancólica. Mas, se essa pequena frase diz tanto, as que vem em seguida são, na minha opinião, as mais lindas que o Eddie já escreveu, especialmente o segundo verso:

“Your light’s reflected now,… reflected from afar…

We were but stones,… your light made us stars..”

Sua luz é refletida agora, refletida de um lugar distante…

Nós éramos apenas pedras, sua luz nos fez estrelas…

Aqui mantém-se a ideia de que o que interessa é o “aqui”. Não interessa o que tem depois da morte, o que restou para admirar é essa luz que a pessoa deixou, luz esta que é refletida de um lugar muito longe daqui, e que, mais adiante, será a distância de anos-luz.

O segundo verso, como disse, é o mais belo que o Eddie já escreveu. A presença de dois opostos na mesma sentença (pedras, estrelas), e a comparação da mudança ocorrida quando a “luz” dessa pessoa passou é tão linda que toda vez que ouço na música é como se estivesse ouvindo pela primeira vez. E de novo, não interessa o “além vida”, o que interessa é o que essa pessoa fez em vida, mudando aquilo que era bruto, disforme e pesado, para algo indescritível e sublime, que brilha no céu e ilumina o céu de todas as pessoas. Não consigo pensar em uma analogia tão linda e perfeita em qualquer outra música já escrita.

“With heavy breath,… awakened regrets…
Back pages and days alone that could have been spent,

Together… but we were… miles apart”

Com a respiração pesada,… arrependimentos despertados..
Páginas viradas e dias solitários que poderiam ter sido passados

Juntos, mas estávamos separados por milhas…

Depois do refrão, em que uma voz inconsolada tenta ver algo de positivo na passagem dessa pessoa pela terra, agora retorna-se aos lamentos, mais especificadamente, arrependimentos. No primeiro verso desse trecho o Eddie mostra-se tenso, e é possível ver essa pessoa de cabeça baixa respirando pesadamente, lembrando-se do que ela poderia ter feito para aproveitar mais o tempo que passou. Essa pessoa que se foi parecia estar querendo manter uma conexão com o Eddie, mas ele estava ausente, passando dias solitários e que agora tornaram-se páginas viradas. Lembrando que nessa época temos um Eddie perdido tanto amorosamente quanto nos seus próprios questionamentos existenciais, e claro, tudo isso reflete-se no álbum e, no caso da “Light Years”, está fortemente marcado pelo arrependimento de não ter aproveitado algo que era bom: a presença e companhia dessa pessoa, agora morta.

E, para concluir esse sequência de versos, temos uma comparação que irá culminar com a ideia de anos-luz, ponto principal da música: estávamos juntos apenas fisicamente, mas nosso relacionamento era separado por milhas, e a ideia de distância, aqui colocada em milhas, será mudada no verso seguinte para polegadas e, em seguida, anos luz:

“Every inch between us becomes light years now…”

Cada polegada virou anos-luz agora…

Pronto, temos o motivo do Eddie usar a palavra “light years”, a distância que o separa dessa pessoa é agora de anos-luz. E, se me permitem, deixe-me fazer um pequeno adendo aqui: ‘’Light Years’’ é, na minha opinião, o centro do álbum; a ideia de colocar uma capa onde aparece uma estrela morrendo, além de toda a arte dele se relacionar com o universo, estrelas e galáxias, é toda remetida a ‘’Light Years”. As alusões da música à ideia de anos luz, unidade de medida incomum e gigantesca para os nosso padrões, unida à questão da morte, revolta e melancolia, é o que o Eddie quis  deixar mais claro nesse álbum, e “Light Years” é o ponto central do Binaural devido a isso. A morte traz revolta para em seguida tornar-se melancolia; unido a tudo isso está o arrependimento, aquela sensação de que tudo poderia ser diferente se eu tivesse agido de outra maneira.

“No need to be void,… or save up on life…

You got to spend it all…”

Sem necessidade de ser vazio,… ou salvo pela vida…

Você deve gastar/doar tudo…

Aqui chegamos à conclusão de tudo. Mesmo que vaga e ainda manca, já é alguma coisa: daqui pra frente não há porque permanecer com esse vazio no seu interior, mas, por outro lado, não há perdão pelo que já passou, não há salvação. A questão agora é tentar viver da melhor maneira possível, mesmo sabendo que o arrependimento e a saudade permanecem; afinal de contas, todos temos perdas na vida, todos temos arrependimentos e dores que não irão passar, por isso, deixemos essas questões de lado, ou, pelo menos, atenuadas dentro de nós mesmos.

Em seguida temos novamente o refrão e, em seguida, um trecho instrumental absolutamente maravilhoso. Parece que tudo que foi dito agora se mistura e parece transferido para todos os instrumentos, a batida da bateria continua dolorida, as guitarras se misturam em uma “jam” tocante,  e o solo é tristonho, sem esperança e, no seu final, parece ascender para o nada, apenas para fazer ponte a mais um último refrão que repete-se doloroso e resignado.

__________________

Essa é a “Light Years”, a melhor música do meu álbum preferido do Pearl Jam. Tudo que ela diz, tanto pela maneira dolorosa que o Eddie canta, quanto pela perfeição e harmonia encontrada pelo restante da banda, tudo é fruto de uma experiência verdadeira e humana pela qual todos nós passamos ou passaremos um dia. Espero que minha análise tenha ficado clara para aqueles que não conheciam muito essa absoluta obra-prima!

Publicado no blog dia 10 de Fevereiro de 2014.

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