Parting Ways

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Quantos fãs por aí conhecem Parting Ways?

Ela fecha timidamente o Binaural, disco lançado pelo Pearl Jam em 2000 e, na minha humilde opinião, resume toda a atmosfera da banda naquela época: sombria e melancólica. Parting Ways, caminhos partidos; uma música sobre separação, medo e conformismo.A entrada dela já rouba qualquer expectativa de algo mais silencioso, comum nas composições que fecham os álbuns da banda. A música já começa com o acorde Mi, que vai se repetindo seguidamente durante toda a melodia, e é intercalado por uma sequência de notas que transmitem uma melancolia na sua mais pura forma. Todo o clima dela é pesado e triste, e o Eddie não deixa muito espaço com a sua escolha de palavras. O violino e o violoncelo são partes fundamentais na melodia, deixando-a ainda mais bela e lírica; fico sem palavras para explicar o quanto os dois influenciam a música (por isso que amo a versão de estúdio). A bateria parece refletir com as suas batida espaçadas toda a dor dessa separação, desses caminhos que se partiram. A voz do Eddie é vulnerável e tenta contar a história dessas duas pessoas sem tomar partidos; ele parece estar olhando de longe a cena. O interessante é que ele estava se separando da sua esposa nessa época, por isso acho incrível o fato dele tomar uma distância da situação sem deixar a canção ficar piegas. A letra dessa música é perfeita! Poucos versos, simples, diretos e de certo modo frios.

Behind her eyes there’s curtains,

and they’ve been closed to hide the flames,… remains…

Por trás do olhos dela existem cortinas,

e elas estão fechadas para esconder as chamas,… restos…

Aqui temos a negação, o momento do relacionamento em que tudo está acabado mas a pessoa faz tudo para esconder a dor, a tristeza de uma possível separação que possa vir a ocorrer e trazer com ela sofrimento. O casal parece saber o quanto de “chamas” o relacionamento deles esconde, e as cortinas dos olhos dela são a prova dessa negação.

She knows… their future’s burning,

but she can smile just the same, same…

Ela sabe… O futuro deles está queimando,

mas ela consegue sorrir, sempre o mesmo, mesmo…

A metáfora do fogo continua aqui (como recuperar algo que foi queimado, impossível, certo?), e agora as chamas invadem o futuro deles, ou seja, tudo que poderia acontecer está queimando, não há mais alternativa. Ao jogar o futuro no fogo, resta o presente (o novo futuro) que já está em chamas. E ao mesmo tempo que tudo isso acontece, ela consegue sorrir; estaria ela infeliz? Satisfeita? Ou apenas uma ironia do compositor? Talvez toda essa dúvida pairasse na cabeça do Eddie quando ele viu que o relacionamento dele estava acabando: ela ainda consegue sorrir, mesmo com tudo isso acontecendo; mas sorri porque?

And though her mood is fine today,

there’s a fear they’ll soon be parting ways…

E embora o humor dela esteja bom hoje,

há um medo de que eles em breve sejam caminhos partidos…

O compositor continua colocando ela como alguém tranquila mesmo com tudo desfalecendo à sua volta. As cortinas dos olhos dela parecem continuar fechadas, ela continua negando, ou simplesmente não se interessando mais por ele (talvez as duas coisas). Mas há o medo; medo de que eles se separem mesmo com o amor queimando aos poucos. Ou seja, ela parece calma, achando que as coisas estão bem, mas no fundo sente que está tudo desmoronando. Os “caminhos partidos” são uma metáfora perfeita; ele (Eddie) poderia usar “separados”, “distantes”, “seguindo rumos diferentes”, mas não… O Eddie do Binaural é extremamente lírico, tudo é pensado para soar mais poético.

Standing, like a statue,

a chin of stone, a heart of clay…

Parado, como uma estátua,

um queixo de pedra, coração de lama…

Agora a situação é voltada para o “ele” do relacionamento, e o Eddie é direto aqui: ele é uma estátua, estático, sem ação, talvez alguém que não toma a dianteira no relacionamento e apenas assiste parado: queixo de pedra e coração de lama. O seu físico é forte, ele mostra para os outros ser alguém firme e decidido, mas por dentro ele é fraco, tem o coração de lama, facilmente derrotado, derretido por qualquer atitude dela e do mundo à sua volta.

And though he’s too big a man to say…

There’s a fear they’ll soon be parting ways…

E embora ele seja muito grande para dizer,

há um medo de que eles em breve sejam caminhos partidos…

Aqui há uma repetição do “Embora..”: antes é sobre ela (“E embora o humor dela esteja bom hoje”), e agora é sobre ele (“E embora ele seja muito grande para dizer”); mesmo ele sendo alguém grande, com grandes valores, há um medo de eles seguirem caminhos partidos. Em seguida, com a repetição do verso “There’s a fear they’ll soon be parting ways”, tanto para ela, quanto para ele, o compositor mostra que os dois sabem que estão se separando; que, aos poucos, o futuro deles queima, sem a possibilidade de volta. Considero essa comparação o alicerce principal da letra, o restante são detalhes sobre cada deles. E o mais incrível é que com poucas informações dadas pelo Eddie, nós podemos visualizar essas duas pessoas perfeitamente: uma mulher mais fria, indiferente ao relacionamento, e um homem de coração fraco que ainda parecia tentar algo para que a história dos dois não se partisse.

Logo no final dessa parte, após o último “parting ways…” a guitarra entra com toda a distorção em uma batida forte e única, (2:08 na versão de estúdio), e a bateria finalmente aparece com força, como que batendo em algo para machucar. Aqui acontece a separação de fato: é nesse momento que os dois seguem caminhos diferentes, caminhos partidos. Aqui a beleza dessa música chega em um clímax: as guitarras mudam a melodia, entoando trechos novos e mais melancólicos (2:25); agora eles seguem outro caminho, finalmente separados. E os versos finais não oferecem uma resposta, parece mais uma esperança vazia, eles apenas vagam por aí, sem rumo, sem respostas para o que acaba de acontecer:

Drifiting away,… Drifting away,… Drifting away…

Drifiting away,… Drifting away,… Drifting away…

Afastando-se,… afastando-se… afastando-se….

Afastando-se,… afastando-se… afastando-se…

(podemos entender esse “drifting away” como afastando-se, mas também vagando, perambulando.)

Agora eles caminham separados e se afastam a cada segundo que passa, sem a possibilidade de retorno, sem qualquer esperança de algo que possa dar certo; afinal, o futuro deles está queimando. À medida que o tempo avança, avança também o fogo, devastando qualquer chance de que algo posso melhorar daqui pra frente.

O violino reaparece aqui com mais força e dita o ritmo dessa separação. Finalmente, depois de todo o sofrimento, o acorde final, cheio de distorção, coloca um ponto final na música (3:25). Está acabada a história dos dois, resto o violino, que canta entristecido até desvanecer; e se vocês repararem bem, o violino não para de tocar, ele apenas é silenciado.

Espero que essa breve análise mostre o quanto “Parting Ways” é fantástica e o quanto ela pode dizer em tão poucos versos. Infelizmente ela é pouco conhecida no meio dos fãs, por isso fiz esse texto para mostrar toda a força contida nela. O que mais me deixa feliz de ser um fã dessa banda é que estamos por descobrir muito mais em cada álbum, música, versos, solos, etc.. Esses caras tem muito, mas muito a dizer…*Com relação às batidas de uma máquina de escrever minutos após a Parting Ways acabar, não acho que tenha relação com a música. Li, se não me engano no Pearl Jam Twenty, que essa parte é um “desabafo” do Eddie por um bloqueio criativo que ele teve enquanto escrevia as letras pro Binaural. Essa sucessão de letras que ele bate na máquina (elas aparecem no livreto que contém as letras do álbum) parece ser um forma dele se auto criticar por essa falta de ideias (pelo jeito funcionou, as letras desse álbum são fantásticas!).

Publicado no blog dia 18 de Fevereiro de 2013.

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